O Padre Oscar tinha enorme influência na comunidade de Harmonia, quase totalmente católica Arquivo/FN

O cônego Oscar Mallmann foi um personagem importante na história de Harmonia. Tanto que, 13 anos após a sua morte, a comunidade local lhe prestou grande homenagem pela passagem do centenário do seu nascimento. Para entender o porque desta reverência, reproduzimos aqui uma reportagem publicada pelo Fato Novo no dia 19 de maio de 1983, quando o cônego completava 80 anos. Por ela se vê que ele foi, acima de tudo, um grande padre, ou seja, um pastor de almas.

“Há mais de 50 anos servindo como sacerdote na vila de Harmonia, o padre Oscar Francisco Mallmann é a figura humana mais característica e saliente desta comunidade. Nascido em Lajeado, no dia 20 de março de 1903, ele estaria próximo de completar, portanto, os seus oitenta anos de idade.

Oscar Francisco tornou-se o padre Mallmann em 1927, quando ordenou-se no seminário de São Leopoldo. Serviu inicialmente como padre auxiliar em Estrela por dois anos e, em 15 de março de 1930, veio para a Harmonia, donde nunca mais se retirou.

Naquela época, conforme relata o padre mostrando muita fluência e discernimento, e servindo de sua memória privilegiada, a Harmonia era uma vila muito pequena e habitada por gente humilde. A riqueza do lugar, naquela época, eram as atafonas, com sua produção de farinha de mandioca. Depois desenvolveram-se as culturas da acácia negra e dos cítricos e, finalmente, surgiu a Cooperativa, que veio dar um grande impulso ao desenvolvimento da vila.

Já bem antigamente, mesmo antes da sua chegada, havia entre a população o cuidado em proporcionar estudo aos filhos, existindo para isto aulas paroquiais e públicas. O pai do ex-arcebispo metropolitano Dom João Becker dava aulas na vila. Nascido na Alemanha, Dom João viveu a sua infância em Harmonia.

Não é, entretanto, apenas este arcebispo e o atual, Dom Cláudio Colling (natural de Harmonia) que se inscrevem na lista dos grandes prelados que têm ligação com aquela vila.

Também Dom Jacob Hilgert é natural da região e frequentou, quando menino, as aulas de doutrina do Padre Oscar; Dom Cinésio Bohn foi batizado por ele; Dom Cláudio Hummes, quando iniciou a sua vida sacerdotal, foi ajudante de missa do mesmo padre Oscar e, ainda, o bispo Dom Afonso Gregory foi batizado por este sacerdote.

Padre Oscar, atualmente Cônego, foi e ainda é um grande pastor de almas. É essencialmente um doutrinador e, por isto, contribuiu para a formação de tão grandes vocações religiosas.

Na Harmonia, depois de mais de cinqüenta anos de trabalho deste notável sacerdote, nota-se um grande entusiasmo pela religião. Para se ter uma ideia, existem vinte meninos servindo como coroinhas, os quais chegaram a formar um time de futebol que disputa o campeonato intermunicipal da categoria infantil. A freqüência à missa é notável e não existe atualmente nenhuma pessoa residindo na vila que não seja católica. A única que havia, anos atrás, acabou convertendo-se ao catolicismo. Não é de admirar-se que, nos últimos cinquenta anos, sagraram-se padres cerca de cinquenta jovens harmonienses. Uma vocação para cada ano de trabalho do Padre Mallmann junto à juventude local.

Quando tinha 77 anos, o padre adoeceu e os médicos lhe recomendaram repouso absoluto. Razão pela qual um outro sacerdote teve de ser designado para ser o vigário de Harmonia. Mas nem assim o padre Mallmann deixou a terra que ele adotou desde moço. Continua lá, já recuperado na sua saúde, rezando missa, batizando, casando gente como sempre fez ao longo de mais de cinco décadas. Nas horas vagas ele capina numa hortinha que está cultivando.

Sobre o seu extraordinário trabalho de catequese, diz apenas que sempre foi o que ele mais sentia desejo de fazer. Seguiu nisto a sua inclinação natural, a missão que lhe foi destinada por Deus.

Em toda a minha vida, comenta ele bem humorado, eu sempre fui um cachorrinho de Deus. Conta-se do padre Oscar que, quando um casal ia à igreja batizar seus primeiros filhos, ele recomendava que enchessem um cestinho. Ou seja, que tivessem muitos filhos. A quantidade de filhos que ele sugeria aos pais era uma dúzia.”

Reportagem publicada pelo Fato Novo no dia 19 de maio de 1983

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