As matas do Vale do Caí já foram o habitat de muitas onças Reprodução/Internet

Nicolau Dreys conta também sobre os tigres, ou seja, as onças, que eram um dos grandes temores da população naquele tempo. Neste trecho do seu livro Memória Descritiva, que transcrevemos a seguir, Dreys fala mais da situação da zona de campo, na qual ele andava e onde morava a quase totalidade da população rio-grandense. O temor pelos tigres era ainda maior na região da selvas, como a do Vale do Caí, nas quais estas feras tinham melhores condições de enfrentar o homem graças à sua habilidade para subir em árvores e à possibilidade de se esconder.

“Os tigres são numerosos no Rio Grande, como em todas as vastas planícies da margem setentrional do Rio da Prata. Eles têm deixado, é verdade, as imediações das vilas. À medida que a população se adianta, eles recuam, como as tribos selvagens dos indígenas. Mas eles, assim como os índios, só cedem o terreno passo a passo. Rodeiam escondidos as habitações dos homens e lançam-se, às vezes, inopinadamente no meio deles para surpreender e agarrar a presa.

Os matos e as altas macegas do Rio de São Gonçalo (que liga a Lagoa dos Patos à Mirim), na sua parte mais meridional, contêm ainda numerosas famílias de tigres. Muitas vezes, navegando por este rio e parando a embarcação – como acontece quase sempre para esperar o vento – ouvíamos, nas primeiras horas da noite, os estrondosos ruídos dessas feras comunicando-se de um a outro lado do rio. Porém, os tigres parecem ser mais numerosos nas planícies que se estendem do Jaguarão a Montevidéu. Nestes desertos temos achado até mesmo alguns currais de paus a pique edificados de propósito, pela providência pública, para o viajante poder se fechar à noite, a fim de poder se resguardar, com sua comitiva, da voracidade do tigre. O que, entretanto, não o livra do incômodo de ser visitado no escuro pelos tigres, que levam o seu atrevimento até ao ponto de passar as garras pelas frestas dos paus, tentando agarrar o que puderem.”

Discriminação das onças

“Dizem que o fogo afugenta o tigre. Não duvidamos que, assim como acontece com os outros animais, cause uma primeira impressão de pavor. Mas, se este medo inicial não é seguido imediatamente de ferimento ou morte, o efeito logo passa e o tigre, vencendo o temor inicial, prossegue nos seus ataques. Tivemos o exemplo de um espanhol a quem o fogo não livrou do tigre. Dormindo no meio dos seus camaradas, em torno de uma fogueira bastante ativa, assim mesmo foi atacado por um tigre que não chegou a matá-lo mas arranhou-lhe horrivelmente a cabeça toda.

É opinião constante entre os viajantes que o tigre observa uma certa graduação no ímpeto de seus apetites cruéis. Dizem que, achando facilidade igual para atacar um branco, um negro e um bruto (Dreys, aqui deve estar se referindo ao índio), o tigre irá se atirar primeiro ao bruto, depois ao negro e, por último, ao branco. Se existem muitas experiências nas quais se fundamentem semelhante classificação, não o sabemos. Mas o que podemos afirmar é que, em nossas repetidas viagens através daqueles campos era difícil ordenar a um negro para que ele fosse sozinho cortar lenha num capão (mato) vizinho. Ele sempre alegava a funesta preferência dos tigres pela carne negra para exigir que alguém o fosse acompanhando.”

Mais vítima do que vilão

Segue Nicolau Dreys, na sua narrativa.
“Parece mesmo que o tigre, em presença do perigo inevitável, perde a sua ferocidade natural e não se lembra mais de sua força e de suas armas. Um destacamento de dragões voluntários, regressando das margens do rio Uruguai para o centro da província, passava pelas imediações de Bagé. Nas fontes do rio Negro os dragões fizeram alto e espalharam-se a procura de caça. Foram, então, lhes aparecendo vários tigres e estes ficaram tão espantados, procurando só fugir, que os soldados desdenharam fazer uso de suas armas e atacaram as feras só a laço. A maior dificuldade foi conter os movimentos dos cavalos, sempre desordenados diante da primeira aparição de um tigre. Mesmo assim, neste dia, os soldados apanharam quatorze destas feras. Nesta ocasião tivemos a oportunidade de comer-lhes a carne e não achamos muita diferença da de vitela.

Existem no país caçadores especiais de tigres que não têm outra profissão. Conhecemos dois caçadores desses, moradores nos matos que margeiam o rio São Gonçalo. Muitas vezes eles assumiram o compromisso de nos fornecer cinqüenta peles de tigre por mês e sempre cumpriram com o trato.”

Arsene Isabelle, outro estrangeiro que escreveu sobre o Rio Grande, relatou que as florestas virgens que cobrem o Vale do Rio Caí servem de covil para os tigres negros. Já o alemão Joseph Hörmeyer, no seu livro O que Jorge Conta Sobre o Brasil, editado em 1863, diz que “três espécies de onças ainda existem no Brasil: A onça amarela (onça parda), também chamada de leão americano ou puma; a onça preta ou jaguar e, finalmente, a onça pintada ou tigre”.

Os homens que se dedicavam à caça de tigres eram chamados de tigreiros. Antônio Rosa, na sua obra História de Montenegro, faz menção a um morador do Vale do Caí que era conhecido como ….Tigreiro porque se dedicava a caçar tigres. É interessante frisar que existiram também bugreiros, que tinham por ofício matar ou espantar os bugres que ameaçavam os colonos brancos instalados nas bordas da mata ainda habitada pelos selvagens.

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