No século XIX e início do século XX, os colonos viviam no meio da selva e o seu meio de transporte eram os cavalos e mulas Arquivo/Felipe Kuhn

Os acidentes de trânsito parecem ser coisa moderna. Mas, na verdade, os meios de transporte foram sempre muito perigosos, desde o tempo em que o homem aprendeu a usar o cavalo, as carroças de boi e os barcos para facilitar os seus deslocamentos e o transporte das suas mercadorias. E isto aconteceu também na nossa região, ao tempo dos pioneiros colonizadores. As estradas, inicialmente, eram muito precárias. E não haviam pontes para atravessar o rio Caí. A primeira delas, a ponte de ferro na Feliz, foi concluída somente no ano de 1900 e a ponte da RS-122, em Bom Princípio, só veio a ser construída em 1968. Antes disto, o melhor meio de um viajante atravessar o rio era no lombo de um cavalo. E isto era bastante arriscado, principalmente nos dias em que o rio estava cheio. No fim do século XIX, dois padres jesuítas morreram desta forma no rio Caí. E estes casos, muito lembrados pelo fato das vítimas serem sacerdotes, certamente não foram os únicos.

Mas não era só nas travessias do rio que havia perigo. Naquela época muitas pessoas morriam também ao andar pelas estradas em seus cavalos ou mulas. No século XVIII, antes de ser iniciada a colonização em Bom Princípio, o que os viajantes mais temiam era o ataque das onças (ou tigre, como o animal era chamado por aqui naquela época). Mas depois de 1850, quando começou a colonização de Bom Princípio, não houve relato de ataque destes grandes felinos na região. Mesmo assim, as viagens pelas picadas no meio do mato, feitas a pé ou a cavalo continuavam arriscadas. O cavalo, ou a mula que também era muito usada como montaria, é um animal domesticado e torna-se até amigo do seu dono. Mesmo assim, cavalgar nunca foi completamente seguro, pois o cavalo pode derrubar o cavaleiro ou dar-lhe um coice e tais incidentes podem ser mortais.

Por esta época havia um ditado popular segundo o qual “quem deseja ter uma vida tranquila precisa de ter três coisas: uma casa sólida, um cavalo manso e uma mulher feia.” O que demonstra o quanto era perigoso para uma pessoa daquela época andar em cavalo arisco.

O que chama a atenção mesmo, quando se estuda a história da nossa região é o número de acidentes fatais ocorridos nas travessias do rio. Antigamente, pela falta de pontes e de barcas, as travessias eram feitas a vau. Geralmente no lombo do cavalo ou da mula. Quando o rio estava muito cheio, a travessia se tornava impossível e quando estava um pouco cheio ela era perigosa. Mesmo assim, premidos pela necessidade de fazer a travessia, muitos viajantes atravessavam o rio em condições adversas. E foram muitos os casos de pessoas que morreram em conseqüência disto.

Na história da nossa região são famosas as mortes de dois sacerdotes, ambos jesuítas, ocorridas desta forma. Um na Feliz, em 1895 (padre Johann B. Ruland), e outro em Bom Princípio, em 1883, (Padre Michael Kellner). E também foi em conseqüência de acidente ocorrido na travessia de um arroio que morreu o padre Rudgero Stenmanns, grande construtor da igreja matriz e principal responsável pela vinda dos irmãos maristas para Bom Princípio.

O padre Michael Kellner integrou o primeiro grupo de jesuítas alemães que vieram dar assistência para os colonos alemães estabelecidos no Rio Grande do Sul. Ele chegou em 1858, juntamente com o padre Bonifaz Klüber e o irmão Franz Rukamp. Antes deles, desde 1849, já atuavam na colônia dois outros jesuítas que, embora não sendo alemães, sabiam falar o idioma e eram muito apreciados pelos colonos. Um deles era o padre João Sedlack, que era natural da Boêmia (hoje parte da República Checa). Sedlack foi pároco em São José do Hortêncio e dava atendimento também às novas colônias (como a de Bom Princípio) que estavam surgindo no Vale do Caí.

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