Imagem da vila de Caxias do Sul em torno de 1890 Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Quando São Sebastião do Caí emancipou-se, a Serra Gaúcha era quase totalmente desabitada. Os índios que por ali perambulavam foram afastados pelo governo imperial para dar oportunidade à realização de um grande projeto de colonização: a atração de imigrantes italianos. A criação do município, tendo o porto de São Sebastião do Caí como sede, deveu-se muito a este projeto. Até então, a atual cidade era apenas um vilarejo, bem menos desenvolvido do que a já próspera vila de São José do Hortêncio. Mesmo assim, foi escolhido o Caí como sede do município, pois ali funcionaria o porto que viabilizaria o grande projeto de colonização da Serra. E assim foi. Caxias do Sul e outros núcleos iniciais da colonização italiana pertenceram inicialmente ao município de São Sebastião do Caí.

Por isto, a história de Caxias tem muito a ver com a história de São Sebastião do Caí e do Vale do Caí. E, por esta razão, reproduzimos aqui, interessante material produzido pelo jornal Zero Hora e publicado na sua edição de 20/11/2003

O vinho tornou-se riqueza
“Os primeiros italianos que se instalaram no Campo dos Bugres, por volta de 1875, sabiam beber vinho. Produzir seria outra história. Oriundos da região do Vêneto, norte da Itália, a maioria trabalhava na lavoura plantando cereais, ou na cidade, dedicando-se ao artesanato. A enologia era um hobby de poucos entendidos. O italiano médio sabia fazer vinho de baixa qualidade. “Eles não dominavam a tecnologia a ponto de saber produzir um bom vinho”, afirma o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. Somente com a política de subsídios e pesquisa do governo gaúcho foi que a Serra se transformou na terra das cantinas.

O vinho era bebida predileta destes imigrantes. Na esperança de desenvolver belos parreirais que serviriam de matéria-prima para as adegas do porão, eles trouxeram na bagagem bacelos (mudas em forma de galhos) de boas uvas. Pura decepção. O solo ácido de grande parte dos lotes acabou com o sonho dos italianos. Cerca de 20 anos antes, o governo imperial havia importado videiras dos Estados Unidos para incentivar a produção de uva nas colônias alemãs.

O projeto da Princesa Isabel não vingou, mas a uva que foi batizada com o seu nome caiu como uma luva para a sede dos italianos, apostaram todas as fichas nos parreirais. Foi um tiro no escuro. “Em geral, os colonos não possuem conhecimentos de viticultura, e o pouco que sabem aprenderam-no pela prática e às próprias custas”, escreveu num relatório de 1905 o professor Humberto Ancarini, funcionário do governo italiano. Resistente ao sobe-desce das temperaturas, a isabel virou unanimidade entre os colonos. Percebendo a falta do produto no mercado brasileiro, os imigrantes logo usaram seu tino comercial para negociar o excedente da produção caseira nas cidades de outros Estados.

Mas o solo fraco produzia uma boa bebida. “A uva isabel contém sais de cal em baixíssima proporção, pois as terras são desprovidas de calcário”, informava Ancarini. “Com isto obtém-se um vinho fraco, áspero e com sabor de morango, sabor este, porém, que agora está sendo modificado artificialmente’ ” Eleito produto de exportação, o vinho precisava ganhar qualidade. Foi assim que, na década de 20, o governador Borges de Medeiros criou o primeiro laboratório de videiras a céu aberto do Brasil.

Instalada numa área onde hoje funciona a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a Estação Experimental de Viticultura e Enologia passou a desenvolver novas variedades a partir de bacelos importados. Técnicos franceses e italianos chegavam da Europa para repassar tecnologia aos colonos. Caxias se transformou em pólo da vitivinicultura.” (Matéria publicada pelo jornal Zero Hora em 20/11/2003).

Os primeiros colonos italianos, antes de utilizarem a variedade isabel, cultivaram parreirais a partir de bacelos obtidos com os colonos alemães do Vale do Caí.

Como surgiu Galópolis

“No início de 1890, um comício promovido pelos operários do Lanifício Rossi, na cidade italiana de Schio, provocou a expulsão de 308 tecelões. Tiveram que deixar a empresa e o país. Eles protestavam contra a redução de 20% dos seus salários. As autoridades ficaram do lado do conde Alexandre Rossi, que perdoou apenas os grevistas com família. Os solteiros vieram parar no Brasil. Um grupo tentou a sorte em Caxias, em terras devolutas da quarta e quinta légua. Construíram rodas d’água e montaram uma cooperativa para uma pequena tecelagem de lã. Em 29 de janeiro de 1898 era inaugurado o Lanifício São Pedro. Sem experiência administrativa, os italianos uniram-se a um antigo industrial de Piemonte que modernizou a empresa. Em pouco tempo, Hércules Galló assumiu o controle da indústria de tecidos de lã e o poder político na vila. Até hoje a localidade fundada pelos grevistas de Schio tem o nome de um capitalista.” (Matéria publicada por Zero Hora em 20/11/2003)

A vila em questão é Galópolis, que hoje é praticamente um bairro de Caxias de Sul, situado junto à rodovia BR-116 e a uma espetacular cascata).

Entre 1898 e 1911 (quando foi inaugurada a ferrovia ligando Caxias do Sul a Porto Alegre) o transporte dos produtos do lanifício até Porto Alegre deve ter sido feito por carroça ou lombo de burro até o porto de São Sebastião do Caí. Por estradas extremamente precárias.

José Galló, presidente da Lojas Renner, é neto de Hércules Galló. Ele trabalha na Renner há quase 20 anos e começou na empresa quando ela ainda pertencia aos herdeiros de A J Renner. Antes de trabalhar nesta empresa, ele foi funcionário da Imcosul (empresa criada por um dos filhos do médico caiense Doutor Carlos Hunsche). No início do século XX, quando Hércules Galló dirigia o lanifício São Pedro, a produção da sua indústria – certamente – era exportada através do porto do Caí. Por aí, provavelmente, iniciaram os relacionamentos da família Galló com as famílias Renner e Hunsche

Do comércio nasce a indústria

“O parque industrial de Caxias do Sul nasceu atrás do balcão de alguma casa comercial. O comércio viabilizou o surgimento de empresas que se transformaram em gigantes dos ramos metalúrgico, vinícola, moveleiro, têxtil e alimentício. Artesãos e agricultores de mão cheia, os colonizadores do Campo dos Bugres também sabiam vender. “0 italiano do Vêneto é empresário por natureza’, diz o professor Mário Gardelin, 68 anos. Os pioneiros eram descendentes dos famosos mercadores de Veneza. Em 1899, o lançamento de impostos do município registrava a existência de 103 casas de negócios em Caxias. Trinta anos depois da imigração, o município de 30.500 habitantes tinha 318 empórios. No centro da cidade funcionavam selarias, açougues, padarias, funilarias, carpintarias, alfaiatarias e ferrarias. O interior era movido por cantinas de vinho, serrarias e moinhos de trigo. Um ano antes do final do século 19, a ex-colônia contava com 223 fábricas. “0 artesanato sozinho não teria condições de impulsionar a indústria”, acredita o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. O empurrão veio com a estrada de ferro Porto Alegre-Montenegro-Caxias, em junho de 1910. “0 trem viabilizou o comércio em grande escala e o acúmulo de capital”, afirma o autor do romance O Quatrilho. Assim nasceu uma das maiores indústrias do Brasil. Herdeiro de uma funilaria, Abramo Eberle sempre foi um grande comerciante. Em suas andanças pelo Centro do país, vendia o vinho e os produtos dos colonos de Caxias. Trazia dinheiro. Quando achou que tinha o suficiente, largou a estrada para erguer a primeira grande metalúrgica do Estado. ” (matéria publicada pelo jornal Zero Hora em 20/11/2003).

Também no Caí a experiência (conhecimento) e o capital acumulados na atividade comercial contribuíram para o surgimento da indústria e de outros negócios, como os criados por Adolfo Oderich, A J Renner e Frederico Mentz.

Adolfo Oderich é um exemplo da transição do comércio para a indústria. Ele formou-se em técnicas comerciais na Alemanha e, no Brasil, começou como caixeiro viajante (hoje se diria representante comercial ou vendedor viajante).

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