No Balneário do Cascalho, do lado direito é Pareci Novo e do esquerdo é Pareci Velho Foto: Reprodução/Internet

Ao Monsenhor Ruben Neis devemos grande parte do conhecimento que temos hoje a respeito dos primeiros moradores do Vale do Caí. E obtivemos também dele as informações referentes a João Pareci, que viveu na localidade hoje conhecida como Pareci Velho (no município de São Sebastião do Caí), na segunda metade do século XVIII. É a ele que se deve o nome que a localidade recebeu.

O Monsenhor nos revela que o padre Tomaz Clarque, primeiro pároco da paróquia de Triunfo, era tio materno do poeta mineiro Tomaz Antônio Gonzaga, herói da Inconfidência Mineira. O padre Clarque deixou preciosos registros sobre os moradores da sua paróquia e destes registros o Monsenhor extraiu informações importantíssimas.

Antes de relatar as interessantes descobertas de Ruben Neiss sobre o pioneiro colonizador João Pareci, é bom esclarecer para os leitores que existem duas localidades na região do Vale do Caí com o nome de Pareci. Uma delas é o Pareci Velho, cujo núcleo central se localiza no município de São Sebastião do Caí mas se estende também pelo município de Capela de Santana. A outra é Pareci Novo, cidade sede do município do mesmo nome. As duas localidades são separadas pelo rio Caí, ficando o Pareci Velho no lado esquerdo do rio e o Pareci Novo no lado direito.

João e Maria Bela

A paróquia de Triunfo, da qual o Padre Clarque foi o primeiro vigário, era muito grande. Ela compreendia todo o território existente entre os rios do Sinos e Caí, Caí e Taquari e, ainda, entre o Taquari e o Pardo. E em todo este enorme território, conforme levantamento feito pelo padre em 1757, haviam apenas duas povoações além da sede paroquial: as de Santo Amaro (hoje São Jerônimo) e de Rio Pardo (hoje a cidade do mesmo nome). Além disto, haviam 25 grandes fazendas neste mesmo território. Nesta época, portanto, o povoado de Capela de Santana ainda não existia. Mas haviam várias fazendas na região de Capela, que então era conhecida como Ilha do Rio dos Sinos. Uma delas situava-se um pouco ao sul do local onde hoje existe a cidade do Caí. Esta fazenda, e mais uma outra situada atrás da atual cidade de Montenegro, pertencia a Bernardo Batista.

No ano seguinte, 1758, o padre Clarque fez um levantamento de todos os moradores da sua paróquia com idade para se confessar e comungar. Ele relacionou 507 pessoas e assinalou que no ano anterior este número era de apenas 251. O que dá uma idéia de que a população da região de Capela aumentava vertiginosamente.

Bernardo Batista e seu cunhado Manoel Mendes moravam na fazenda situada próxima a Montenegro, que se chamava Bom Retiro. Já o pai de Bernardo, que se chamava João Batista Rosa, residia na fazenda que ficava à esquerda do rio Caí, ao sul do arroio Cadeia, local que corresponde atualmente ao Pareci Velho. Nesta fazenda viviam ainda a esposa de João Batista, os filhos e alguns escravos. Entre os escravos, o padre Clarque relacionou um chamado João Parassi, que era casado com Francisca Bela. Nos livros de batismo das paróquias de Viamão e de Triunfo o monsenhor Neis encontrou registros de batismo de vários filhos deste casal, inclusive Maria, nascida em 1756; Paula, em 1759; Ana, em 1761 e Antônio, em 1765.

Ana Bela era mulata e consta também num documento da época que, ao nascer, foi declarada forra (liberta) pelos seu senhor João Batista Rosa e pela mulher deste, Maria Bela. João Batista da Rosa, conforme já vimos, era o proprietário da fazenda situada no lado esquerdo do Rio Caí e que corresponde aproximadamente à atual localidade de Pareci Velho.

O casamento de João Pareci

Ruben Neis encontrou, nos arquivos da Igreja, um documento relativo ao casamento de João Parassi e Ana Bela, ocorrido em 1755. Quanto à noiva estes e outros documentos informam que ela era mulata e escrava de João Batista Rosa. E consta ainda que seus donos a libertaram quando foi batizada. O sobrenome Bela, ela o adquiriu da patroa, como era comum acontecer naquela época.

Para poder casar, o noivo teve de dar uma declaração na qual afirmou que nasceu na aldeia de Cuiabá, dos índios Parassis, e que era filho de pais gentios (pagãos, índios não convertidos ao cristianismo). Era natural, portanto, do atual estado do Mato Grosso. Declarou ainda que saiu pequeno da sua terra natal, indo para as minas de Paranapanema (Neis supôs que se trate da atual Paranapanema, no estado de São Paulo), quando era ainda um menino, levado por Manoel Ferreira que o criou e o encaminhou para o batismo. O mesmo Manoel Ferreira, seu pai de criação, trouxe-o para o Rio Grande do Sul mas, tendo ido para Montevidéu, o deixou com José da Costa. Isto quando ele tinha entre nove e dez anos.

O nome de batismo de João Pareci era João Ferreira da Silva e, quando do seu casamento ele tinha 22 anos. Nesta época era oficialmente proibido escravizar os índios. Mas, mesmo assim, eles eram socialmente equiparados com os escravos e a própria igreja os registrava no mesmo livro em que figuravam os negros. Livro separado daquele que era usado para o registro das pessoas brancas. Os índios e os negros, mesmo sendo livres, costumavam ser registrados nos livros destinados aos escravos.

Muito pouco se sabe sobre o destino de João Pareci, mas é bastante evidente que foi do seu apelido que surgiu o nome da localidade de Pareci Velho e também de Pareci Novo. Não se pode imaginar outra explicação, já que não existiam índios da tribo Pareci no Rio Grande do Sul. O único de que se tem notícia era este que veio do Mato Grosso e, ao casar com uma escrava alforriada do fazendeiro João Batista da Rosa, foi residir na sua fazenda, provavelmente trabalhando para ele.

A palavra Pareci serviu também de nome para a Fazenda Pareci, uma enorme propriedade que se estendia tanto do lado direito quanto do lado esquerdo do rio Caí nas proximidades dos atuais Pareci Velho e Pareci Novo. A grande fazenda incluía as terras dos atuais municípios de Pareci Novo, Harmonia e Tupandi (do lado direito do rio) e partes dos municípios de São Sebastião do Caí e Capela de Santana (do lado esquerdo). Esta fazenda foi adquirida em 1801, pelos irmãos Teixeira, grandes comerciantes de Porto Alegre. E quem a vendeu para eles foi o tenente Joaquim Anacleto de Azevedo. Por que esta fazenda, que pertenceu a tantas pessoas de destaque, foi sempre conhecida pelo nome de uma pessoa tão modesta como João Pareci? Esta é uma questão que ainda não foi esclarecida.

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