No Rio Caí circulavam grandes barcos com carga e passageiros. Na foto, o Vapor Salvador com 30 integrantes do bloco de carnaval "Os Marinheiros" Arquivo: Carlos Antonio Campani

Carlos Emílio Kayser, era proprietário de um armazém na Vila Rica, no mesmo local onde hoje se encontra a loja Clei Modas. Um ponto estratégico, pois ficava no entroncamento das estradas que ligavam o Caí a São José do Hortêncio e à Feliz.

Pelo ano de 1920, ele e um outro comerciante do mesmo bairro Vila Rica (Artur Erich, cujo armazém ficava na estrada para a Feliz, a um quilômetro de distância) eram amigos e enfrentavam um mesmo problema. Ambos tinham muitos filhos e faltavam bons empregos para eles.

Carlos Kayser tinha sete filhos: seis homens e uma mulher.

Procurando empregar melhor seus filhos, resolveu comprar (em sociedade com o amigo Artur Erich) a empresa de navegação Michaelsen, que pertencia a Jacob Michaelsen (pai do ex-prefeito caiense, banqueiro e ministro da indústria e comércio Egydio Michaelsen).

A empresa era muito forte. Havia sido uma das maiores do estado. Mas começara a decair depois que, em 1911, foi inaugurada a estrada de ferro que ligava Porto Alegre a Caxias do Sul. Antes disto, a produção de Caxias do Sul era levada a Porto Alegre pela navegação no rio Caí. Com a ferrovia, o uso dos barcos no Caí diminuiu muito.

Mesmo assim, a empresa de navegação de Jacob Michaelsen ainda era grande. Tinha três vapores: o Caxias, o Otto e o Horizonte. Para comprá-la, Carlos Kayser e Artur Erich tiveram de vender seus armazéns. E, com isto, pagaram apenas a entrada. O restante ficou para ser pago em prestações mensais.

Wilibaldo Kayser era o filho mais velho de Carlos Kayser. Coube a ele ser o comandante do vapor Horizonte, que era o maior dos três vapores da companhia de navegação Kayser & Erich.

O Horizonte era um barco muito grande e bonito. Levava carga e 30 passageiros. E ainda rebocava três chatas (barcos sem motor), cada uma com tamanho equivalente ao do próprio vapor, atulhadas de carga.

O que movia o vapor era a caldeira: uma grande “panela de pressão”. A água, fervendo dentro dela, escapava na forma de um jato, que impulsionava as pás de uma roda. E estas, girando, mergulhavam na água, trabalhando como remos e impulsionando o barco.

Caldeiras, assim como as panelas de pressão, são um tanto perigosas: podem explodir. Por isto, a cabine do comandante do barco ficava em cima da caldeira. Isto fazia com que ele tivesse natural zelo pelo bom funcionamento da mesma. Se ela explodisse, o comandante teria morte certa. E isto fazia com que acidentes com a caldeira dos barcos fossem muito raros.

A sociedade entre Carlos Kayser e Artur Erich funcionou apenas por três anos. Em 1923 eles resolveram dissolver o negócio. Artur comprou a parte de Carlos.

Com isto, Wilibaldo Kayser, que era o comandante do Horizonte, deixou a navegação e adquiriu uma torrefadora de café. O que muito alegrou a sua esposa, Lili Trein Kayser, que já estava grávida do filho Roberto e não gostava de ter o marido quase sempre fora de casa, viajando pelo rio, entre o Caí e Porto Alegre.

O barco partia do Caí às seis horas da tarde e chegava em Porto Alegre às seis da manhã. Começava, então, a viagem de volta, chegando no Caí no final da tarde.

Então, no dia 6 de junho do ano de 1923, aconteceu o mais grave acidente da navegação no rio Caí: a explosão da caldeira do Horizonte.

Era noite, o barco descia o rio, ia adiante de Montenegro. Morreram 12 pessoas e seis ficaram feridas.

Roberto nasceu pouco mais de um mês depois, no dia 29 de julho. Se seu pai ainda fosse o comandante do barco, seu Roberto teria nascido órfão.

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