2 de agosto de 1900: Os primeiros Irmãos Maristas chegam ao Vale do Caí Reprodução/Internet

O irmão Gelásio O. Mombach, no seu livro Sabedoria e Piedade, contou assim a história da vinda dos Irmãos Maristas para Bom Princípio:

“Eram os habitantes de Bom Princípio ciosos de suas tradições culturais e de sua peregrina formação religiosa e cívica. Em fevereiro de 1900, reunidos em Congresso Católico (Katholiken Versammlung) em Santa Catarina da Feliz, sob a presidência do padre Jesuíta Rudgero Stenmanns, e convencidos de que era imprescindível dar aos seus filhos uma cultura mais ampla que a simples alfabetização, que o manejo das operações fundamentais, regra de três e juros, passaram os congressistas ao estudo de como proporcionar às novas gerações um grau de educação igual ao que possuía, então, a classe agrícola da Alemanha, a fim de trazer para aqui o progresso e a civilização da Alemanha.”

Observe-se já neste primeiro parágrafo como a cultura de primeiro mundo existente na Alemanha servia de parâmetro para as aspirações dos colonos de Bom Princípio. Era um modelo a ser seguido. A relativa riqueza obtida pelos colonos naquela época com a produção agrícola e a forte liderança do padre Stenmanns lhes davam as condições de aspirar a uma realização ambiciosa no campo da educação.

Continua a narrativa do Irmão Gelásio: “Ao final resolveram criar uma Escola Complementar (Fortbildungsschule) que formasse líderes intelectuais católicos para o povo e professores paroquiais. Confiaram a execução da ingente tarefa ao Pe. Vigário e à generosidade dos bom-principienses. (…)

O Padre Rudgero, natural da Europa e conhecedor do trabalho educativo da Congregação dos Irmãos Maristas, mantinha correspondência com o Irmão Teofânio, Superior Geral.

O próprio Bispo, Dom Cláudio José Ponce de Leão, Bispo do Estado, estivera por duas vezes em Saint-Genis, casa generalícia do Instituto Marista, solicitando a vinda de Irmãos, filhos de Champagnat, a Bom Princípio.

Ultimados os entendimentos entre o Instituto Marista e Dom Cláudio, o Irmão Teofânio, em maio de 1900, encarregou a Província de Beaucamps, ao norte da França, de atender ao pedido de abertura de uma escola no Brasil sul, mas com irmãos que falassem alemão.

Lançado o convite de Irmãos voluntários que quisessem trabalhar em terras do Novo Mundo, entre os numerosos que se inscreveram, foram escolhidos os irmãos Weibert, Marie Berthaire (José) e Jean Dominici (Domingos).

Terminados os preparativos, no dia 15 de junho de 1900, numa sexta-feira, os três dirigiram-se ao santuário nacional francês de Montmartre, em Paris, para entregar ao Coração de Jesus o sacrifício dos familiares e da Pátria. (…) No dia 19 do mesmo mês embarcaram no porto de Le Havre, no navio Guaíba pertencente à Companhia Hamburguesa de Navegação, para a América do Sul (Hamburg-Südamerikanisch Dampfschifffartsgesellschaft). A travessia durou cinco semanas durante as quais os Irmãos melhoravam seus conhecimentos da língua alemã. Desembarcaram em Rio Grande, “felizes”, na expressão Irmão Weibert, “por terem chegado à terra prometida”. Para desembaraçar as bagagens da alfândega, compostas exclusivamente de roupas e objetos de uso pessoal, o inspetor exigiu o pagamento exorbitante de 600$000, deixando os Irmãos sem um único vintém disponível. Entraram assim no campo de luta sem recursos materiais, somente confiados no Coração de Jesus, na proteção de Nossa Senhora e na boa vontade e ajuda de pessoas amigas.

Alegre recepção

Aos chegarem em Rio Grande os primeiros irmãos maristas chegados ao Brasil tomaram o naviozinho “Mercedes” que, depois de dois dias pela Lagoa dos Patos e pelo Rio Guaíba, os trouxe a Porto Alegre. Tanto em Rio Grande como em Porto Alegre os Irmãos foram acolhidos e hospedados pelos padres jesuítas. A 1º de agosto partiram de Porto Alegre no vaporzinho fluvial Dom Pedro II que, em 15 horas de viagem, os levou a São Sebastião do Caí, pernoitando na cidade, novamente nos jesuítas.

Finalmente, no dia 2 de agosto, chegou a Caí um grupo de cavalarianos para buscar os Irmãos. Com eles veio uma viatura de quatro rodas, limpa, recém-pintada, puxada por dois cavalos, conduzidos pelo Sr. João Guilherme Rodrigues da Fonseca… (Que mais tarde se tornaria o subprefeito de Bom Princípio).

Esta foi a comitiva dos bom-principienses que introduziu os três Irmãos na paróquia. (…) Na entrada da vila foram-lhe ao encontro alegres grupos de paroquianos, que receberam festivamente os Maristas, ao espocar de morteiros (Katzeköpp) e estrugir de foguetes, passando eles sob arcos de triunfo e através de caminhos engalanados com bandeirinhas, verdes festões e flores.

Na porta da igreja paroquial, o Pe Rudgero Stenmanns os recebeu de braços abertos, com as palavras que comoveram a todos: “os filhos da Companhia de Jesus recebem os filhos da Congregação de Maria”. Todos entraram na igreja. Os Irmãos agradeceram a Deus e a Nossa Senhora a proteção de longa viagem e renovaram a consagração da obra marista que iriam começar. Da igreja, o padre vigário os conduziu à residência, uma casa com sala única, com três camas de vento, três cadeiras de palha e três bacias para se lavarem. Era o conforto da época. As crônicas de Bom Princípio acrescentam: No bolso 0$000.
Até selos foi preciso esmolar a fim de informar os superiores da Europa sobre o feliz êxito da fundação. Feliz? – Sim, pois embora os irmãos carecessem de tudo, os colonos dadivosos providenciavam ao necessário. Não passavam manhã sem que algum campônio ou alguma colona caridosa se achegassem e oferecessem gratuitamente ovos, manteiga, batatinhas etc. Não lhes faltou, sobretudo, o auxílio generoso dos padres da canônica, inaugurando uma tradição de estreita colaboração, com destaque, mais tarde, de Mons. José Becker, vigário por mais de 35 anos.

No dia seguinte, 3 de agosto, primeira sexta-feira do mês, na missa solene, imensa massa popular enchia a igreja paroquial. O vigário, em nome da paróquia, deu as boas-vindas aos Irmãos, apresentando-os ao povo.

Ao apresentá-los, o Pe. Rudgero teria informado aos presentes que cada irmãos receberia, pelo trabalho, o soldo mensal de trezentos réis.

Consta que um dos colonos, metido a gaiato, se saiu com esta: “Dia Leit is dass awa ein téia Fleisch!” (Que carne caríssima é esta!), causando espanto e risadas.

Na santa comunhão o Padre, os Irmãos, o povo, unidos consagraram ao Sagrado Coração de Jesus a nova obra educativa cristã que se estava inaugurando no Estado do Rio Grande do Sul. No final da missa, em uníssino entusiasmo, todos entoaram o “Grosser Gott wir oben Dich” o Te Deum popular dos alemães.

A cerimônia encerrou com a benção do Santíssimo Sacramento. No dia 16 de agosto iniciaram as aulas na Escola Paroquial, num pequenino prédio cedido pela comunidade.
Estava assim dado o primeiro passo da caminhada marista em terras do Rio Grande, com o Colégio Coração de Jesus.

Em breve haveriam de chegar mais levas de Irmãos: alemães, franceses e espanhóis.
Já no primeiro lustro do século fundaram-se: em 1904, o Ginásio Santo Antônio, de Garibaldi; o Colégio Sant´Ana, de Uruguaiana, e a Escola Paroquial São Luiz, origem do Colégio Santa Maria (1905). Em 1903 os Irmãos Maristas assumiram a Escola Paroquial dos padres jesuítas, em Santa Cruz, que deu origem ao Colégio São Luiz.”

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