Em 1863, o bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira visitou as colônias alemãs do interior do estado, entre elas São José do Hortêncio e Bom Princípio. O secretário de Dom Sebastião, que o acompanhava na viagem escreveu um relato desta viagem feita a cavalo Reprodução/Internet

Pelos meses de abril e maio de 1863, o bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira empreendeu uma viagem pelo interior do estado, visitando as colônias alemãs de São Miguel (hoje Dois Irmãos), Bom Jardim (hoje Ivoti), São José do Hortêncio e Bom Princípio. Depois de visitar São José do Hortêncio, comunidade já com 35 anos de existência e há 14 transformada em sede paroquial, o bispo e sua comitiva partiram para uma visita à jovem colônia de Bom Princípio. O secretário de Dom Sebastião, que o acompanhava na viagem (segundo a opinião respeitável do Padre Arthur Rabuske, seria o padre Am. Guidez, de língua francesa e recentemente chegado da Europa) deixou o seguinte relato desta viagem feita a cavalo:

“Segunda-feira pusemo-nos a caminho para a Picada da Anunciação do Bom Princípio, do outro lado do Rio Caí. Detivemo-nos algumas horas na colônia do Novo Paraíso, a mais recente de todas que se estabeleceram, há alguns anos a esta parte, em toda a extensão da Serra Geral.

Apeamo-nos à porta de um bom alemão, oficial de sapateiro e curtidor, que, surpreendido e confuso pela honra da visita episcopal em sua humilde habitação, parecia embaraçado da maneira com que nos devia receber. Entre a multidão de homens, mulheres e meninos que enchia a porta para saciar a vista com a presença do Prelado, Sua Exª distinguiu um rapazinho de ar vivo que chamou para junto de si e lhe dirigiu algumas perguntas sobre o catecismo. Nas respostas prontas e inteligentes do menino tivemos uma nova prova do cuidado constante que os padres missionários e os próprios pais tomam na instrução religiosa da mocidade.

Felizes meninos arrancados à miséria e à corrupção das cidades da Europa para aqui acharem em grande abundância o ar, o sol e o pão do corpo e da alma! Ah! Se os milhões de infelizes que apodrecem nas cidades e nos campos do velho mundo, entregues a toda sorte de privações, pudessem transportar-se a estes desertos! Mas os governos estão cegos sobre a felicidade dos povos e seus próprios interesses. Despendem-se somas fabulosas em aformosear cidades, com ornamentos estéreis, quando uma pequena parte destas somas, consagradas à emigração do excedente das populações, faria não somente a felicidade de milhares de famílias pobres, como ainda diminuiria muito a concorrência ao trabalho, aumentaria a taxa dos salários, e diminuiria consideravelmente o número dos delitos e dos crimes que gera a miséria. Não se pode deixar, à vista das maravilhosas cenas de beleza e fertilidade que apresentam estes desertos, não se pode deixar, dizemos, de exclamar: Que pena ficarem tão belos países inutilizados à falta de braços para torná-los em pouco tempo verdadeiros paraísos!

Prosseguimos nossa viagem, e uma hora depois chegamos às margens do Rio Caí, que pudemos atravessar de vau. Do outro lado do rio a alguns passos nos apeamos diante da casa em que nos devíamos alojar, cuja porta principal haviam ornado com uma linda grinalda de louro, tendo sobre ela uma mitra com as armas episcopais. Era seu proprietário um excelente católico alemão, de ar patriarcal que se gloriava de possuir quinze filhos. Não pudemos perceber onde se agasalhou tão numerosa família depois de nossa chegada.

Chegada a Bom Princípio
Infelizmente a pequena igreja da Anunciação do Bom Princípio dali distava bastante, e o terreno que costeava o rio era lamacento e pantanoso.

O padre Miguel (seria o padre Miguel Kellner, que veio ajudar o padre João Sedlack, a partir de 1858, na paróquia de São José do Hortêncio) digno missionário que administra estes bons colonos, veio receber o Prelado à frente de uma numerosa e alegre procissão. Sob um arco triunfal de verdura e de flores. Sua Exª foi saudado por um rapazinho de doze a treze anos, de uma das principais famílias do lugar, que recitou com emoção, mas com voz clara e inteligível, uma poesia em alemão em seu louvor, cuja tradução é a seguinte:
“É este o dia do Senhor, de longe e de perto ouvem-se ressoar cânticos de louvor saídos de corações devotos! Vedes em torno de vós, ó Pastor cheio de graça e de amabilidade, este rebanho que ternamente vos ama, ao qual conduzis e guiais pelos pastos da salvação? Há muitos anos que, errante ao longe, parecia abandonado; finalmente porém aparecestes, ó Pastor, porque pensáveis nele; viestes hoje visitar com carinhoso afeto e zelo infatigável estas vossas ovelhinhas desviadas e conduzi-las ao aprisco sagrado. Estávamos ameaçados, mas, desassombrados no meio dos obstáculos e contradições, varonilmente lutáveis, e logo que façais o aceno de pastor apressar-se-á o iníquo bando dos nossos adversários. Vinde pois, ó Bom Pastor, entrai no meio deste vosso rebanho fiel, em cujos peitos palpitam corações sinceros: o bastão pastoral confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo às vossas mãos digníssimas seja para nós um farol e prova visível que a religião santa de Jesus Cristo ainda existe. Em vós, ó coluna da Santa Igreja, lançamos os nossos olhos, e aprouvera a Deus que os nossos lábios pudessem dignamente enunciar o que sentem os nossos corações!”

(Esta peça literária, provavelmente a primeira da literatura principiense a ser publicada, possivelmente foi de autoria do padre Miguel. Mais do que transmitir informações, ela reflete os sentimentos da comunidade local: o de fervor religioso, o do abandono sentido por aquelas famílias de pioneiros vivendo longe da civilização, o de temor pela ameaça dos inimigos – uma referência, talvez, aos índios, mas mais provavelmente aos inimigos da fé, que poderiam ser os protestantes ou os maçons).

Finda a recitação, o Sr. Bispo adiantou-se debaixo do pálio e sob arcadas de verdura até a pequena igreja onde o padre missionário o cumprimentou de novo com um belo discurso em português, traduzido depois ao povo em alemão.

Procedeu-se depois à cerimônia do ósculo ao anel pastoral. À tarde porém, depois do jantar, uma tropa de mais de sessenta cavaleiros veio buscar Sua Exª e acompanhá-lo à luz de archotes, para ver diversos transparentes iluminados de que a igreja se achava ornada em sua honra. A cavalgada era precedida de uma banda de músicos que, ao mesmo tempo que guiava seus cavalos, tocava sobre instrumentos diversos as mais belas peças. (Esta descrição dá conta de quanto já havia crescido a colônia de Bom Princípio que dez anos antes contava apenas com 18 famílias) Ao chegar perto da igreja, que de longe parecia toda em fogo, os nossos ouvidos foram atroados pelo estampido de uma peça de artilharia sem carreta que os mancebos da colônia carregavam a tiros repetidos, os quais repercutiam pelos bosques e montanhas vizinhas como os de um numeroso parque. Esta peça, de fundição européia, sem dúvida ali trazida pelos primeiros exploradores do país, foi achada, há alguns anos, entre o limo do rio, e conservada para defesa, em caso de necessidade, contra as incursões dos bugres. Os nossos cavalos não pareciam gostar de modo algum de todo este barulho; muitos de nós correram seus riscos de se verem lançar fora da sela. Foi preciso pedir aos atiradores que esperassem até que estivéssemos suficientemente distantes, para então continuarem a dar fogo.

Calorosa recepção
A porta da igreja e suas seis janelas estavam ornadas de transparentes iluminados pela parte de dentro, representando diversos emblemas, tais como as duas chaves e a tiara pontifícia, a mitra, o báculo, e as armas episcopais, que, em alusão ao nome de família do Sr. Bispo, trazem uma laranjeira carregada de frutos, tudo isto artisticamente pintado a óleo por aquele mestre de escola polonês, cuja voz já havíamos admirado em São Miguel

(a mesma pessoa foi mencionada num trecho anterior da narrativa, nos seguintes termos: “era um soberbo contralto. O cantor era um polonês da Picada do Bom Princípio”).

Viam-se também diversas inscrições, tais como:
“Ecce sacerdos magnus – pasce agnos meos – pasce oves meas – Benedictus qui venit in nomine Domini”, e outras semelhantes que produziam um belíssimo efeito.

Foi uma boa lembrança fazerem nesta mesma noite a iluminação, que não poderia ter lugar no dia seguinte, festa da Ascensão, e nos dois imediatos, pois que apenas a cavalgada, precedida dos músicos, esteve de volta à casa em que residia o Prelado, repentinamente mudou-se o tempo. O céu tornou-se afogueado à luz dos relâmpagos temerosos trovões retumbaram em todo o horizonte, e uma chuva abundante começou a cair em torrentes, continuando assim durante sessenta horas consecutivas. Os caminhos tornaram-se por conseqüencia impraticáveis, não impedindo todavia aos bravos colonos concorrerem de todos os lados à Confirmação. Foi tão grande o seu número que Sua Exª Revma., não podendo pela chuva ir à igreja, determinou-se a confirmá-los na mesma sala da casa em que nos achávamos. Não era possível, em um espaço tão apertado, caber mais do que um certo número. Os outros esperavam pacientemente à porta, expostos sem abrigo a um tempo medonho, molhados até os ossos, homens, mulheres, crianças; e, uma vez terminada a cerimônia, montavam em seus cavalos tão ensopados como eles, para tornarem às suas habitações, distantes duas, três e mais léguas ( 12, 24 e mais quilômetros) pelos mais horríveis caminhos que se possa imaginar.

Ah! É bem certo que o Reino de Deus pertence de predileção aos pobres e simples; somente eles em o nosso século infeliz, possuem aquela fé viva, que nada desanima, aquela fé que lhes faz considerar os sacramentos da Igreja e as menores graças de Deus como inestimáveis tesouros.

Na realidade, semelhante cena era suficiente para consolar bastante tristezas e fazer esquecer bastante fadigas.

Entretanto foi-nos forçoso deixar estes excelentes colonos da picada do Bom Princípio, e dirigimo-nos à colônia Feliz, onde éramos esperados. Aproveitamos os primeiros raios do sol para pormo-nos a caminho. Duas vezes tivemos de passar o Rio Caí, engrossado pelas chuvas, em barcas com nossos cavalos e bagagens, porque de outra maneira não seria possível. As estradas estavam mui lamacentas, mas não nos aconteceu acidente algum.”

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe um comentário
Please enter your name here