Foto do centro de Pareci Novo, em 2012 Arquivo/FN

Numa época em que não existiam ainda nem aviões, nem caminhões e nem mesmo trens, era fundamental a importância da navegação. Era por navios que se fazia o transporte entre os continentes e mesmo entre os diversos pontos de um país. Foi pela importância da navegação que o desenvolvimento e a povoação do Brasil se deu inicialmente na região litorânea. E também no Rio Grande do Sul, a maioria das primeiras povoações foram estabelecidas em locais acessíveis por embarcação. Foi o caso de Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre, Triunfo e Rio Pardo.

No início do século XIX, os barcos mais usados eram os a vela. Impulsionados pela força dos ventos eles atravessavam oceanos, faziam a navegação costeira e penetravam no continente através de rios, como o São Francisco ou o nosso Jacuí. Os donos de navios eram grandes empresários daquela época.

E assim eram os irmãos João Ignácio e José Ignácio Teixeira. Naturais de Santa Catarina, eles se estabeleceram em Porto Alegre e possuíam uma frota de navios que, segundo consta, era utilizada inclusive para o tráfico de negros escravos. Uma “mercadoria” muito comercializada na época. Os irmãos João e José foram sócios nas atividades de navegação e comércio por 30 anos, até 1824, quando morreu João, o principal cabeça dos negócios.

João Ignácio Teixeira morava na Rua da Praia. Ele possuía uma chácara no Caminho Novo (atual Rua Voluntários da Pátria) e um importante armazém no Centro de Porto Alegre. Foi homem de grande destaque na época. A ponto de a atual Rua General Câmara ser conhecida naquele tempo como Beco do João Ignácio. Ele era um líder dos comerciantes portoalegrenses, tendo sido o encarregado de, em 1818, defender os interesses do comércio local junto ao rei Dom João VI.

Ao morrer, em 1829, João Ignácio deixou muitos bens, inclusive 117 escravos adultos e 25 menores. Por aí se vê que ele era um homem riquíssimo. Entre os muitos bens que ele deixou em Porto Alegre e no interior do estado, figurava a Fazenda do Pareci.

Antes de serem adquiridas pelo rico comerciante João Ignácio e por seu irmão e sócio José Ignácio, as terras do Pareci pertenceram a Antônio José Viegas e João Ferreira da Silva que ali se dedicavam à criação de gado já em 1767. Depois disto as terras passaram para outros proprietários até serem adquiridas por João e José Ignácio em 1801.

João Ignácio Teixeira permaneceu solteiro até a sua morte. Mas reconheceu como sendo seu filho natural o menino José Ignácio Teixeira, que foi batizado em 17 de novembro de 1807 recebendo o mesmo nome do seu tio, que também foi seu padrinho. Mais tarde, para diferenciar, o menino passou a ser chamado José Ignácio Teixeira Júnior. Não se sabe até hoje quem foi a mãe de José Ignácio Júnior. Mas um quadro da época revela que ele era loiro e contavam-se histórias segundo as quais ele teria sido fruto do relacionamento amoroso entre o rico comerciante João Ignácio e a mulher de um capitão de navio estrangeiro.

Juca Teixeira

Segundo documentos da época, o menino teria nascido em outubro de 1807 e, como seu pai era solteiro, foi criado inicialmente na casa do padrinho e tio José Ignácio, que era casado. Anos depois, ainda menino, passou a viver com o pai. Também conhecido pelo apelido de Juca Teixeira, José Ignácio Teixeira Júnior foi o maior proprietário de terras na região do Vale do Caí no século XX e teve grande influência na vida da região.

Suas terras se estendiam pelas duas margens do rio Caí, no Pareci Velho e no Pareci Novo. Mais importante, no início, eram as terras do lado esquerdo do rio, próximas a Capela de Santana. Terras de campo, apropriadas para a criação de gado. Do lado direito do rio, predominavam os matos e iam do Pareci Novo até Tupandi.

A sede da fazenda foi estabelecida no local onde hoje se situa a cidade de Pareci Novo. A casa de Juca Ignácio era um grande prédio do qual não restam hoje se não vestígios. Juca casou em Porto Alegre, no dia 8 de dezembro de 1829, com Margarida de Sena, também natural daquela cidade e filha do cirurgião-mor Inácio Joaquim de Paiva. Ele faleceu em 21 de setembro de 1865.

Ao vender terras, principalmente para colonos de origem alemã provenientes de São José do Hortêncio, Juca Ignácio e seus descendentes incentivaram o desenvolvimento de toda a região colonial constituída pelos atuais municípios de Pareci Novo, Harmonia e Tupandi.

No ano de 1867, poucos anos após o falecimento de Juca Ignácio, foram vendidos, por exemplo, lotes de terra, em Harmonia, para os colonos João Platsa, Jacob Jung, João Nonemarcaer, Pedro Sauermann, João Knak, João Faolgel, Felipe Heck, Pedro Sauster. Também nas cabeceiras do arroio Salvador (em Salvador do Sul, Tupandi) foram vendidos lotes para Nicolau Rothen, Pedro Rothen, Antônio Ams, Mathias Simon, Pedro Fink e Mathias Hartmann. Nas margens do rio Caí, Nicolau Lectuer e Pedro Weber. No Arroio dos Franceses, Pedro Schmits, Jacob Stephan e Felipe Moechaisser. A dificuldade que os escrivãos dos cartórios, de origem lusa, encontravam para entender os nomes germânicos faz com que a grafia nos documentos antigos seja confusa. Pode se deduzir que nomes como Nonemacaer e Faolgel sejam de ancestrais dos atuais Nonemacher e Vogel (que, em alemão, pronuncia-se fogel).

O historiador Leandro Telles, em cujos estudos nos baseamos para formular este resumo histórico, salienta que os colonos estabelecidos nas terras da fazenda Pareci eram todos católicos. Será que Juca Ignácio, católico fervoroso, tinha preconceito contra pessoas de outra religião? Isto pode ter influenciado na decisão tomada pelos padres jesuítas de transferir o Seminário Menor que haviam fundado no Caí, em 1891. A mudança ocorreu em 1895 e seis anos depois já havia sido erguido ali um dos grandes prédios que hoje ainda se encontram no centro de Pareci Novo. A mudança ocorreu por iniciativa do padre Teodoro Amstad. No ambiente exclusivamente católico do Pareci, o seminário cresceu rapidamente, sendo logo construidos vários prédios. E muitos sacerdotes ali se formaram. Mesmo assim, em 1913, o seminário foi transferido para São Leopoldo (lá dando origem, mais tarde, à UNISINOS).

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