A Azaléia serviu de modelo para uma nova forma de relação entre empresa e empregado Arquivo/FN

Criador da empresa Calçados Azaleia, Nestor de Paula foi um dos maiores empresários gaúchos de todos os tempos. Começando do nada, ele criou uma das maiores indústrias calçadistas do mundo.

Ele era um homem muito simples e tinha suas origens no interior do município de São Sebastião do Caí.

Seu pai se chamava João Nepomocena de Paula, nasceu no Campestre da Conceição em 16 de maio de 1894 e foi batizado na igreja de Nossa Senhora da Conceição, no atual bairro caiense da Conceição.

Genealogia

João Nepomocena era filho de Francisco Luis de Paula e Castorina de Oliveira Flores. Os avós paternos do pai do empresário Nestor de Paula chamavam-se Joaquim Luis de Paula e Francisca Custódia Salasar. Os avós maternos eram Gabriel José Flores e Maria Rita de Nascimento.

Os bisavós paternos de Nestor (pais de seu avô Francisco Luis de Paula) foram João Pereira Sarmento e Eufrásia Maria do Nascimento, provenientes de Santa Catarina.

Os biavós maternos de Nestor de Paula (pais de Francisca Custódia Salasar) chamavam-se Francisco Salasar e Florida Paula Cardin da Silva.

Depois de crescido João Nepomucena tornou-se comerciante, dono de um armazém que se situava entre Estância Velha e Novo Hamburgo. E foi lá que nasceram seus filhos, inclusive Nestor.

Irmãos de João Nepomucena continuaram residindo no Caí, principalmente nas localidades de Campestre da Conceição e Campestre de Santa Terezinha, situadas nas duas margens do Arroio Cadeia. Por isto, o grande empresário tinha muitos parentes no Caí. Tanto que ele costumava dizer que ficou feliz ao implantar as duas fábricas da Azaleia no município, por elas ficarem perto dos seus parentes.

Preservando as origens

Nestor de Paula perdeu a mãe quando tinha apenas cinco anos de idade e seu pai faleceu quando ele estava com dez anos de vida.

Nestor de Paula foi um dos mais brilhantes e humanitários empresários do país – seu pai era natural do Campestre da Conceição
Arquivo/FN

Mas João Nepomucena de Paula deixou uma profunda lembrança no filho. Nestor costumava dizer que tudo que ele aprendeu de mais importante lhe foi ensinado pelo pai, que lhe ensinou a ser trabalhador, humilde e honesto. O espírito de solidariedade humana que causava tanta admiração em quem conheceu o empresário Nestor de Paula também lhe foi ensinado pelo pai. Com exemplos.

Estando certa vez no Caí, Nestor conversou com seu primo irmão Pedro de Paula (residente no bairro Rio Branco, pai da Secretária Municipal da Saúde de São Sebastião do Caí, Clarice Lermen de Paula) e contou-lhe que lembrava de quanto tinha seis anos e brincava com amiguinhos jogando bola de vidro na frente do armazém do pai, em Estância Velha. Certa vez ele viu pessoas muito pobres que pediam esmola e ficou sensibilizado com a situação destas pessoas. Viu, então, que uma delas entrou no armazém de seu pai e saiu depois com um grande pacote de donativos. Nestor ficou muito feliz pelo gesto de bondade praticado por seu pai e nunca esqueceu aquela cena.

O menino Nestor Herculano, apesar das dificuldades enfrentadas pela orfandade, cresceu e veio a tornar-se um dos maiores empresários brasileiros de todos os tempos. Ele deu enorme contribuição para o desenvolvimento de muitos municípios gaúchos e de outros estados brasileiros, especialmente no Nordeste.

Azaleia impulsiona o progresso caiense

Nenhum cidadão fez tanto pelo progresso econômico e social do Caí como Nestor Herculano de Paula. Algumas pessoas podem contestar esta afirmação lembrando outros nomes memoráveis da história caiense como os do médico e prefeito Bruno Cassel. Mas, quem quiser sustentar a afirmação de que Nestor de Paula fez mais do que qualquer caiense para o progresso do município terá fortes argumentos. E, no entanto, muita gente do Caí não conhece este seu grande benfeitor.

Ele foi um dos fundadores da empresa Calçados Azaleia e o seu grande comandante até o ponto de transformar esta empresa na maior fábrica de calçados femininos da América e uma das maiores do mundo. Foi ele, também, que tomou a decisão de instalar no Caí, no ano de 1986, duas fábricas da empresa: a Azaleia São Sebastião e a Azaleia Conceição. Ao fazer isto, Nestor de Paula deu um enorme impulso à economia do município. A arrecadação de impostos da prefeitura aumentou enormemente nos anos seguintes, graças ao incremento dado pela arrecadação proporcionado pela empresa. Graças a isto, a prefeitura do Caí conseguiu realizar grandes obras na década de 90, como o asfaltamento de ruas, ajardinamento, implantação de escolas e creches e até estimular a vinda da UCS para o município. Com o aumento de recursos gerado pelas fábricas da Azaleia, a prefeitura conseguiu melhorar enormemente o atendimento à saúde da população. O comércio e os serviços do Caí também foram muito beneficiados com a oportunidade de vender para os funcionários da empresa.

Além disto, as fábricas caienses da Azaleia proporcionam mais de 1.000 empregos e trouxeram para a cidade uma nova cultura no que diz respeito ao modo de tratar os funcionários. Proporcionando vantagens aos seus funcionários que eram desconhecidas antes no meio industrial caiense, a Azaleia serviu de modelo para uma nova forma de relação entre empresa e empregado que foi assimilada pelo empresariado local. A transformação por que o Caí passou de 1986 para cá, tem muito a ver com a obra deste empresário admirável.

Começo modesto

Nascido em 1937, na cidade de Novo Hamburgo, Nestor de Paula teve origem humilde. Quando jovem, ele trabalhou como cobrador de ônibus e – o que foi muito útil mais tarde – em lojas de calçados. Seu irmão Arnaldo Luiz trabalhava como modelista e vendedor de uma pequena fábrica de calçados de Parobé. Ele decidiu abrir uma fábrica de calçados e, lembrando da experiência que Nestor já tinha no ramo, o convidou para tornar-se sócio da empresa. Para começar suas atividades, a indústria utilizaria um espaço no prédio de uma pequena ferraria pertencente a Theno Berlitz, que também se tornou sócio. Dois cunhados de Theno, Nelson e Arnildo Lauck ingressaram também na sociedade.

E assim começou a fábrica, ocupando apenas um espaço da modesta ferraria e tendo as esposas dos sócios como primeiras operarias. No primeiro dia foram produzidos dez pares de sapatos femininos e, depois de três semanas de trabalho, a produção já havia aumentado para 25 pares dia. Como fabricar sapato, naquela época, era coisa de alemão, foi dado à empresa o nome Berlitz, Lauck & Cia Ltda, deixando de lado o nome de Paula.

As atividades da fábrica começaram em 1959. A então noiva de Nestor, chamada Diva, foi uma das primeiras funcionárias. Natural da cidade de Canela, ela antes havia trabalhado nas fábricas de calçados Bibi( aos 14 anos, como operária) e depois no escritório da Lindar. Na empresa do noivo, Diva cuidava do escritório e ainda trabalhava na produção, como costureira. Seu turno de trabalho começava às seis da manhã e terminava às seis da tarde e ainda levava serviço para casa. Quando nasceram os três filhos do casal, Daise, Daniel e Camila, ela passou a trabalhar com calçados em casa, para poder cuidar também das crianças e das tarefas domésticas. Ela fez isto por 15 anos, até 1973. A função de Nestor nos primeiros tempos da fábrica era fazer o serviço burocrático, especialmente junto aos bancos. Mas ele também trabalhava na produção, passando cola.

Morte prematura

Com este início modesto, mas com dedicação, esforço e união do grupo, a empresa cresceu e chegou a ser o que é hoje: uma empresa de destaque mundial. Com o tempo, Nestor de Paula revelou-se o grande líder da Azaleia e os seus méritos foram reconhecidos de diversas maneiras. Em 1981, foi eleito Destaque Industrial pela Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo. Em 1984, a FIERGS lhe conferiu o título de Mérito Industrial do RS. Em 1987, foi apontado Industrial do Ano pela Francal, em São Paulo. Em 1998 foi agraciado como Comendador da Ordem do Mérito da Bahia e, no mesmo ano, ganhou o prêmio Líder Estadual conferido pela Gazeta Mercantil.

Infelizmente este homem que tanto teria a dar ainda para o desenvolvimento do país foi precocemente acometido por grave doença (seria câncer, segundo comentam funcionários da empresa). Ele chegou a fazer tratamento até nos Estados Unidos, mas não foi possível vencer a doença. Há três anos teve de começar a afastar-se do trabalho mais pesado e, ultimamente, ficava apenas na sua casa, em Novo Hamburgo. Reuniões de diretoria chegaram a ser realizadas na sua residência. Há pouco mais de um ano, foi contratado o ex-governador Antônio Britto para substituí-lo no comando geral da empresa.

Nestor morreu na madrugada de 23 de janeiro de 2004, no Hospital Regina, em Novo Hamburgo e foi velado no pavilhão da FENAC, onde recebeu homenagens de milhares de admiradores, inclusive de uma parte dos mais de dez mil funcionários da empresa. Ele tinha 66 anos.

No Caí e região, milhares de funcionários e ex-funcionários da Azaleia devem a ele a oportunidade de trabalhar e aprender com esta empresa exemplar.

E a filosofia que orientou a criação e o desenvolvimento da Azaleia, como depreende das palavras do próprio Nestor de Paula, veio dos ensinamentos deixados por seu pai, o caiense João Nepomucena.

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