A procissão fluvial em louvor a Nossa Senhora dos Navegantes no Rio Caí é de conhecimento da maioria dos caienses. Porém, poucos caienses sabem que uma procissão similar era feita também pela comunidade de Campestre da Conceição no Arroio Cadeia. Arquivo/FN

Que haja uma festa de Navegantes no Caí é fácil de entender. Afinal o rio Caí está ali bem visível, ao lado do bairro Navegantes. E muita gente sabe que o rio Caí, no passado, foi muito usado para a navegação. Há cem anos, boa parte dos moradores deste bairro trabalhavam no porto do Caí ou nos barcos que o utilizavam.

Mas o Campestre da Conceição, aparentemente, fica muito longe de qualquer rio navegável. Muitas pessoas ignoram que o arroio Cadeia passa perto desta localidade e que, no passado, o arroio era intensamente usado para a navegação. Os primeiros colonizadores de São José do Hortêncio tinham este arroio como principal via de transporte para Porto Alegre. Naquela época não existiam estradas e usar o arroio, apesar das suas condições de navegabilidade um tanto precárias, era a melhor opção.

E o mesmo acontecia com os moradores de origem portuguesa que habitavam o Campestre da Conceição. Eles utilizavam o arroio Cadeia para transportar a produção das suas lavouras para o mercado de Porto Alegre. E por isto eram devotos de Nossa Senhora dos Navegantes, a santa protetora dos que trabalham com a navegação.

Conforme demonstram fotos e relatos da época, os barcos usados para navegar pelo arroio Cadeia eram pequeno e tinham o casco achatado, o que permitia a navegação mesmo em baixa profundidade. Os navegantes do Cadeia não usavam remo nem motor. Para subir o rio usavam varas com ganchos numa das extremidades. Assim eles impulsionavam o barco contra a correnteza engatando os ganchos nos galhos ou troncos das árvores existentes na margem do arroio e puxando com a força dos seus braços.

A benção de Nossa Senhora dos Navegantes
A navegação no Arroio Cadeia deixou de existir há muito tempo. Mas a 60 ou 70 anos atrás ela ainda era praticada. Por isto existe na localidade uma capela de Nossa Senhora dos Navegantes. Arsênio Kafer e Terezinha da Costa nos contam uma história do tempo da navegação.

“Os homens, através da história, nunca andaram sozinhos. Deus sempre esteve com eles. E pesquisando a história de nossa comunidade, também sentimos a presença de Deus chamando pessoas, pois nada acontece por acaso, tudo tem um sentido e com certeza aos personagens da nossa história, Deus tinha confiado-lhes uma missão.

Isso aconteceu, aproximadamente, em janeiro de 1932, quando os quitandeiros Justino Rodrigues dos Santos, Cassemiro Gabriel Flores, Marcos Armindo Rodrigues e Antônio Rodrigo de Paula iam repetir mais uma das tantas viagens com o barco Flor do Cadeia, carregado de frutas, rumo ao mercado em Porto Alegre. A rota era mais ou menos essa: Arroio Cadeia, depois Rio Caí, após Jacuí e finalmente o Guaíba.

Naquele dia, a mãe natureza anunciava chuva e, a certa altura da viagem, foram surpreendidos por um violento temporal. A princípio, deram o melhor de si para equilibrar o barco, mas a tempestade continuava, foi então que ancorados na fé e na confiança que vem do Alto, oraram espontaneamente e fizeram uma promessa à Nossa Senhora dos Navegantes que caso se salvassem construiriam uma capelinha e também fariam procissão pelas águas do Arroio Cadeia, próximo ao passo (ponto de início da viagem deles) em honra à Nossa Senhora dos Navegantes.

Como sempre, Deus os acompanhava. Deve ter sido um dia marcante na vida deles. Seu Justino, Seu Cassemiro, Seu Armindo e Seu Tonico assumiram com fidelidade o que tinham prometido. A princípio, repetindo as procissões que eram realizadas no trecho que ia da cachoeira grande ao mencionado passo dos Silveira, onde ficava a espia e a barca ancorada.

Era uma organização espontânea, algumas famílias até traziam um pedacinho de carne para assar. Passavam o dia por aqui, iniciando-se assim em torno deste local, além do fator religioso, a vida social da comunidade. A capelinha foi construída mais ou menos em 1939. É a mesma que aí está. É claro que receberam ajuda de outras pessoas da comunidade entre as quais foram citados os nomes de João Pereira, Tomé Antônio Azevedo, Otaviano Flores, Teodomiro Fores, João Pereira Filho, Gabriel Pereira, João de Deus Fagundes, Alfredo de Paula, Alfredo Bueno, Pedro da Silva Bueno, Tomé Pereira, Rosalino da Costa e José Antônio Pereira.

A partir daí surgiram as festas. O padre Nicolau Flach rezou a primeira missa nessa capelinha. Contam também que era tradição chover no dia da festa. Com o passar do tempo, o espaço aqui foi ficando pequeno e era preciso também construir uma capela maior.

No início da década de 60, Dona Conceição Flores doou parte da atual área, onde hoje se encontra a nossa Igreja. Lá também, com muito esforço, foi construído um pequeno galpão onde eram feitas as cerimônias religiosas e posteriormente a Igreja, o galpão maior e o cemitério. Agradecemos a Deus por colocar em nossa comunidade, pessoas, que como os quatro pioneiros, colocaram à disposição dos outros seus dons. Temos o Padre, o Ministro Extraordinário da Eucaristia e Comunidade, a Diretoria, Catequistas e outras pessoas do povo. Nossa capelinha foi restaurada. Foi uma ideia das atuais Zeladoras do Apostolado que sugeriram uma rifa, uma ação entre amigos para angariar fundos para esta finalidade.

A partir de hoje, 31 de janeiro de 1998, com a benção do Padre Inácio, ela é denominada Oratório.

Esta pesquisa foi só um começo. Muita coisa já se perdeu no tempo. No passado os personagens da história foram outros. Hoje somos nós. E estamos registrando-a, rogando a Deus para que outras gerações que vierem depois da nossa, também, formem a Igreja, pois a Igreja somos todos nós.”

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