My lord era o cachorrinho da família Oderich , e foi vítima de um tiro disparado por um policial na esquina da prefeitura em 1915 Imagem meramente ilustrativa/Internet

Esta historia, escrita por Max Adolfo Oderich (filho de Adolph Oderich), nos mostra um pouco dos costumes do Caí por volta de 1915. Resumimos:

Max quando era ainda menino, tinha um cachorro muito estimado que se chamava My Lord. Um dia ele foi sequestrado por tropeiros de gado. Estes tropeiros, depois de vender o gado que haviam trazido, retornavam para aos seus pagos. Ao verem o belo cachorro bulldog, solto na rua, sem coleira, acharam que era um cão sem dono e o capturaram e prenderam dentro de um cesto de vime vazio, que eles usavam para levar a carne seca que consumiam durante a viagem. Algum tempo depois, o cachorro encontrou o caminho de casa e voltou para a convivência de Max. Mas não por muito tempo.

“Naqueles tempos, cão de estimação pagava imposto. Não sendo possível afixar-se uma chapinha no traseiro do cachorro, como se costuma fazer com os veículos, inventaram uma coleira na qual a dita chapinha deveria ser presa. Acontece que o Senhor Paulo (jardineiro da família Oderich) achava que cachorro como o nosso, criado livremente, não poderia usar um colarinho duro desses, ainda mais em dias de canícola, como somente no Caí sabe fazer. E eu estava plenamente de acordo com esse raciocínio. Assim, My Lord não usava a sua coleira, apesar de estar com o imposto pago. Para a Prefeitura, no entanto, cachorro sem coleira era cão vadio, sem dono. Para estes (os cães) tinham preparado bolinhos especiais de carne levemente temperados com estricnina.

O nosso jardineiro costumava almoçar no Hotel Weingarten (situado, mais ou menos, defronte à atual agência do Banco do Brasil SA). Naquele dia o Senhor Paulo subiu a rua Marechal Floriano para descer pela rua Pinheiro Machado. Na esquina da Prefeitura velha estava postado um policial munido dos citados bolinhos. O Senhor Paulo seguia em frente, provavelmente já antegozando a suculenta bacalhoada servida no restaurante. Lembrando-se de tudo menos de My Lord, sem coleira, que o seguia a dois passos, como metodicamente fazia. Posição da qual não o conseguia afastar nem gato maroto nem cadela melindrosa, useira e vezeira em desencaminhar, da tão estreita quanto íngreme trilha do bem, cachorro sério e bem comportado. Sorrateiramente, o representante da LEI jogou uma bolinha aos pés de My Lord. Este estaqueou. Farejou o petisco e, provavelmente, chegou à conclusão de que certo tempero líquido faltava, pois levantou a perninha traseira, como se poste de telefone ali existisse, e espargiu o líquido que julgava faltar. Em seguida, prosseguiu calmamente.

A molecada, onipresente, considerou o feito magistral. Irrompeu em vivas e aplausos, o que deve ter soado nos ouvidos do guarda como ultraje à autoridade constituída. Acometido de repentina e incontrolável ira, sacou do revólver e, com certeiro tiro, alvejou ao nosso inocente My Lord.”

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