O Conde Felice de Montravel comprou uma grande área do Governo Imperial com a ideia de vender lotes de terra para europeus Reprodução/Internet

O vale do Forromeco, espremido entre montanhas, é de uma beleza extraordinária. Lembra as paisagens europeias dos Alpes. Só que aqui o que cobre a terra não é a neve, mas a vegetação luxuriante da mata atlântica, com sua incrível biodiversidade. Para os imigrantes que vinham da Europa, onde já faltavam terras próprias para cultivar, o Vale do Forromeco parecia um paraíso. Na Europa, superpovoada, as terras custavam muito caro. Na província do Rio Grande do Sul, elas eram distribuídas praticamente de graça pelo governo. Os europeus, ao verem a possibilidade de tornarem-se donos de grandes extensões de terras férteis, ficavam encantados e, muitos deles, sonharam em criar aqui recantos paradisíacos nos quais poderiam viver maravilhosamente. E uma das pessoas que entusiasmou-se com as possibilidades de colonização deste vale foi o Conde Felice de Montravel.

Alguns autores referem-se ao conde pelo nome de Paulo Montravel, que era vice-cônsul da França em Porto Alegre (ou no Rio de Janeiro, segundo outras fontes). Ele vinha há algum tempo propondo ao governo brasileiro a criação de uma grande colônia na qual pretendia instalar 18 mil pessoas vindas da Europa. Seu sonho era criar ali uma espécie de condado, como havia na Europa, no qual ele teria grande autoridade. Falava até em criar um exército próprio para esta colônia. Montravel, certamente, acreditava que poderia fazer maravilhas transferindo um povo culto e laborioso para uma terra fértil e abundante. Em seus sonhos, imaginava que a colônia por ele criada seria um verdadeiro paraíso.

Vendo boas possibilidades de Montravel atrair colonos europeus para colonizar o pouco povoado território do Rio Grande do Sul, o Governo Imperial vendeu a ele uma extensa área (17.424 hectares) no Vale do Caí. Era muito menos do que o Conde pretendia obter inicialmente. E a área de terras que lhe foi finalmente entregues não era a que ele inicialmente havia reivindicado. O governo havia lhe prometido uma área que seria adquirida de José Ignácio Teixeira, às margens do rio Caí (que corresponderia aproximadamente ao atual município de Harmonia), mas o que ele acabou recebendo foi a área em torno do atual município de São Vendelino. Uma área incomparavelmente mais difícil de colonizar em virtude da distância em relação ao rio Caí. Mas o governo imperial acabou oferecendo algumas compensações financeiras e o Conde aceitou a empreitada.

Difícil de vender
Montravel associou-se com três investidores brasileiros: o doutor Israel Soares de Barcelos, o doutor Dionísio de Oliveira Silveiro e João Coelho Barreto. Com eles formou a firma Montravel, Silveiro & Cia e os três empreenderam a fundação da colônia que recebeu o nome de Santa Maria da Soledade. Ela foi dividida em quatro distritos, cada uma com o nome de um dos sócios: Distrito Montravel, Distrito Barcelos, Distrito Coelho e Distrito Silveiro.

A venda desta grande área de terra foi feita sob a condição de que a empresa conseguisse atrair para ela um determinado número de colonos. O plano inicial do Conde Montravel era de buscar colonos na Suíça, e ele fazia questão de que fossem todos católicos. Seus planos neste sentido, entretanto, não deram certo e Montravel, para cumprir o seu compromisso com o governo imperial brasileiro, teve de buscar imigrantes em outros países da Europa, deixando de lado restrições como a de que os colonos fossem católicos. Para isto, a empresa colonizadora contratou agenciadores que faziam propaganda da nova colônia para atrair interessados em mudar-se para lá. A Prússia (região da atual Alemanha) era o principal alvo destes propagandistas, pois era grande a situação de miséria do povo prussiano na época.

Mas as dificuldades para convencer europeus a se aventurarem num mundo tão distante era grande. O número dos que vieram foi bem menor do que o esperado. Por isto, muitos colonos que compraram lotes na colônia criada por Montravel eram filhos de imigrantes alemães chegados ao Brasil no período de 1824 a 1830 que haviam se estabelecido nos vales dos rios do Sinos e Cadeia. Na medida em que os filhos destes colonos cresciam e se casavam precisavam adquirir terras novas para cultivar. Naquela época, cada casal de colonos tinha muitos filhos e não era possível que todos se sustentassem trabalhando nas terras que o governo havia dado originalmente aos seus pais.

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