Seu Manuel era, na prefeitura, a pessoa encarregada de redigir textos: desde uma lei até uma simples correspondência Arquivo/FN

Manuel Câmara começou a trabalhar na prefeitura do Caí quando tinha apenas onze anos de idade. Sua primeira função foi de tuco. Nome que se dava aos trabalhadores encarregados de arrancar o inço que crescia por entre as pedras do calçamento irregular nas ruas da cidade.

Ele era filho de um modesto funcionário municipal chamado Manuel Pedro da Câmara, conhecido pelo apelido de Neco e famoso na cidade por ser um bom goleiro e juiz de futebol. Neco havia participado das tropas gaúchas que garantiram a tomada do governo federal por Getúlio Vargas em 1930. E, quando retornou para o sul depois da campanha vitoriosa, veio num navio chamado Poconé. Isto o inspirou a dar ao filho o nome de Manuel Pouconé da Câmara. O “u” que apareceu no meio do segundo nome foi um lapso de memória ou de cartório.

Apesar da sua origem humilde, o menino Manoel era muito inteligente. Concluiu o estudo fundamental no melhor colégio caiense que era mantido pelas irmãs de Santa Catarina e funcionava no mesmo local onde hoje está a Escola Estadual São Sebastião. Com isto capacitou-se para ingressar no serviço público municipal em cargos de maior relevo. Quando adulto, participou de um curso para adultos organizado por Alceu Masson – o mais renomado intelectual caiense da época.

Com isto, seu Manoel desenvolveu grande capacidade de redação e tornou-se elemento indispensável na prefeitura. Era ele que redigia as leis municipais e até a correspondência expedida pela prefeitura. Tornou-se assessor direto de todos os prefeitos caienses ao longo de um extenso período, incluindo prefeitos como Orestes Lucas, Mário Leão, Bruno Cassel e Heitor Selbach. Havia uma alternância constante no poder, mas seu Manoel continua sempre no cargo, pois ninguém sabia escrever e cuidar da burocracia da prefeitura como ele. Por isto, mesmo depois de chegar o seu tempo de aposentadoria, ele continuou trabalhando na prefeitura por muitos anos.

Casado com dona Massimília, seu Manoel criou cinco filhas: Zaira, Zaide, Zoraide, Zoraia e Alessandra. Esta última escapou do nome iniciado com z por pressão da família. O casal teve também um filho homem, o segundo, que chamou-se Cícero mas morreu com apenas um ano de idade.

Além de trabalhar na prefeitura, seu Manoel ajudou muito aos clubes e entidades locais escrevendo estatutos e atuando como secretário. Tinha letra muito boa e era considerado o melhor datilógrafo da cidade.

Era também um homem calmo que se dava bem com todos e procurava conciliar as pessoas. Era o autor de uma coluna no jornal O Município (editado por Wallace Kruse) que continha anedotas e comentários leves, muito admirada pelos leitores.

Manoel Câmara gostava muito de encontrar os amigos para conversar e era, também, muito religioso. Devoto de Nossa Senhora de Lurdes, ele ia uma vez por mês assistir missa na igreja a ela dedicada, em Porto Alegre. Era também o primeiro a chegar na igreja para assistir as missas da paróquia de São Sebastião, no Caí.

No dia 20 de janeiro de 2005, quinta-feira, ele acompanhou a procissão de São Sebastião, mas percorreu apenas a metade do percurso. Sentiu cansaço. Seu Manoel vinha sentindo falta de ar há alguns anos. Tinha problemas de diabete e no coração. Previa que a morte poderia estar próxima e dizia que seu maior desejo é que ela acontecesse sem sofrimento. E ele teve a sorte de contar com uma boa morte.

Ela aconteceu por volta das três horas da madrugada, quando seu Manoel sofreu um ataque cardíaco durante o sono. Quando sua esposa percebeu, ele já estava moribundo e não chegou sequer a falar alguma coisa. Um grande número de pessoas acompanhou o enterro.

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