O Livro Reminiscências da poetisa caiense Helena Cornelius Fortes retrata em versos, a história de São Sebastião do Caí. m 1918 a Gripe Espanhola matou milhares de pessoas no estado Reprodução/FN

Helena Cornelius Fortes publicou, no ano de 1975, o livro Reminiscências, que ela escreveu em versos, abordando a história de São Sebastião do Caí.

Um obra importante, por ser um dos poucos livros editados no Caí até aquela época e pelas informações que contém sobre a história do município.

Na introdução, ela informa que valeu-se das memórias da sua infância e de informações colhidas com Carlos Rodrigues da Silva, de 91 anos de idade; Garibaldi Moraes, de 84; Alfredo Michaelsen (de 79 anos) e Arthur Henzel, de 81.

A obra é composta de dezenas de poemas. Um dos quais reproduzimos aqui:

MAMÉDE BORGES

Senhor Maméde Borges e dona Nenê Borges,
ainda há quem os lembre com saudades.
Ele Paraguaio e ela Gaúcha,
casal dotado de nobres qualidades.

De cinco filhos eram pais mui dedicados:
Morena, Suely, Mimosa e Adelar.
O caçula da família era Hermes
que aos três anos, de petiço ia passear.

Competente farmacêutico ele era,
e um bom clínico também sabia ser.
Profissões que exercia licenciado
e seus diplomas merecia receber.

Da casa, que hoje é nossa residência
duas portas pra farmácia davam entrada.
E a terceira estava sempre aberta
para atender a pobreza necessitada.

Operações de emergência ele fazia.
Não perdia o bom humor nem se cansava.
Muito dentes, a altas horas extraía,
Muito braço, muita perna engessava.

No ano de mil novecentos e quinze
“Seu” Maméde à toda gente assombrou
percorrendo nossas ruas de automóvel,
(marca Ford) o primeiro que comprou.

De todo o município era o primeiro.
Coisa igual até então não conheciam.
As pessoas, ao ouvir o seu barulho,
espiavam e, de medo, até fugiam.

Quando passou por aqui, a “Hespanhola”
deixou a família caiense enlutada.
Se não fosse o bom Maméde com seu Ford
essa peste a deixaria arrasada.

Todo o dia e também toda a noite,
o barulho do automóvel se ouvia.
Era o Maméde com seu branco guarda-pó
que gente aos montes da peste socorria.

É impossível descrever o que passou.
Basta dizer que os sinos não mais dobravam,
para esconder de um pobre agonizante,
quando seu pai ou sua mãe já enterravam.

Paralisaram os braços das lavouras.
O comércio e as fábricas fecharam.
As escolas também fecharam as portas
mas, as portas da farmácia não fecharam.

O Intendente andava preocupado,
temendo que a comida nos faltasse.
As pobres vacas mugindo pelas ruas,
como a implorar por alguém que as ordenhasse.

E desse leite o doente precisava.
Era o único alimento que ingeria.
Foi então que veio o leite condensado
que a Secretaria da Saúde remetia.

Hospital, naquele tempo, aqui não tinha.
Nesse tempo era atrasada a Medicina.
Não havia soro nem transfusão de sangue
nem tinham descoberto a Penicilina.

Pyramidam em cápsulas para febre
ou Fiberlin, Mainzentropfen, da Alemanha,
eram drogas na gripe empregadas.
E, para a tosse, um chá de Ipecacuanha.

Dona Nenê trabalhou como enfermeira,
auxiliou o seu marido em que podia.
A Hespanhola mais e mais se alastrava
e o casal samaritano prosseguia.

Nem Instantina, Melhoral nem Veamon,
Poção de Sabugueiro pra pneumonia.
Nas farmácias era tudo fabricado,
preparados como hoje não havia.

Com parcos recursos científicos
era difícil ser bom médico, então.
Maméde Borges deixou raiz profunda
no abençoado solo de São Sebastião.

Mesmo assim, com tanto encargo e afazeres,
não só agiu em sua função profissional.
Quando minutos do dia lhe sobravam,
investia no campo da vida social.

Fundou o nosso saudoso Club Tesoura
e o Clube Teatral de Amadores.
Fundou, com outros, o nosso belo Prado
e era dono de puros corredores.

A inconfundível figura paraguaia
seu entusiasmo não conseguia esconder,
quando num baile marcando a “Polonaise”
ou lá no prado, vendo o seu “Puro” vencer.

Brasilidade foi ele que introduziu
entre o caiense que era muito alemão,
apresentando teatro brasileiro
para ensinar-lhe o idioma da Nação.

Colégio Elementar, que era do Estado,
era menos frequentado que o alemão.
No vernáculo alemão era ensinado
tanto uma como a outra religião.

Com sacrifícios e esforços a toda prova,
daqui, o primeiro cinema inaugurou.
Não havendo luz elétrica para isso,
um motor junto à sua casa colocou.

No jardim de nossa casa ainda existe
um reforçado bloco de cimento
onde o motor de, não sei quantos cavalos,
dava a luz desconhecida até o momento.

No salão da sede do Club Tesoura
com um filme muito bom foi inaugurado.
Por ser mudo, uma pequena orquestra o acompanhava:
piano, flauta e violino bem tocado.

Tudo isso que ele fez por nossa terra,
em brancas nuvens não devia ficar.
O Caiense deverá gravar seu nome
numa rua ou numa praça do lugar.

Os seus filhos, que ainda vivem lá no Rio,
de quando em vez as saudades vêm matar.
Com muita satisfação eles viriam
para uma placa de seu velho inaugurar.

Quinze anos após sua partida,
a Divina Providência enviou
pra ocupar o seu lugar do bom casal
outro melhor, porque veio e aqui ficou:

Foi dr. Cassel e dona Mercedes
que esta terra com carinho recebeu.
Trouxeram uma filha pequeninha.
E o filho, foi aqui que ele nasceu.

São conhecidos como “Pais dos pobres”.
Todo caiense nele vê um irmão.
No consultório não distingue classes.
Na vez terceira governa este chão.

Com muito zelo e habilidade
rege os destinos do nosso Caí.
Com muito zelo e habilidade
as vidas salva com seu bisturi.

Se escrever fosse o que ele já fez
por este povo de São Sebastião,
não caberia em um só livro
tudo o que sai do nosso coração.

Notas:
A gripe espanhola grassou pelo mundo no ano de 1918. Em Porto Alegre, matou 1316 pessoas.

O doutor Cassel veio para o Caí em 1938. Já que Maméde deixou a cidade 15 anos antes, isto teria ocorrido em 1923.

Segundo informação colhida por Walace Kruse de Arno Kusminski, o “doutor” Maméde disputou uma corrida no Caí, com o seu automóvel, em 1913. Portanto, ele deve ter vivido aqui entre o início da década de 1910 e o ano de 1923.

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