No casarão que construiu em Linha Nova Alta, Georg Heinrich Ritter manteve um grande aramazém colonial e a primeira fábrica de cerveja do estado Arquivo/FN

Logo no início da povoação de Linha Nova Alta foi criada uma associação escolar (Schulverein). Ela surgiu da iniciativa dos próprios colonos, preocupados desde logo em garantir a educação de seus filhos. E, em 1850, esta associação criou uma escola particular, sem nenhuma ajuda do governo. A educação foi a primeira e maior preocupação destes colonos pioneiros. Aparentemente esta preocupação foi maior até do que a que tiveram em relação à religião, pois somente em 1856 foi criada a Comunidade Eclesiástica e Escolar de Picada Nova. Esta entidade, fundada por 30 famílias de colonos protestantes, passou a cuidar da atividade religiosa e educacional na localidade. Naquele mesmo ano a Comunidade adquiriu uma área de terras (meia colônia, equivalente a 34 hectares) para ali construir uma igreja, uma escola e uma casa paroquial. A área de terras servia também para que os primeiros pastores e professores tivessem as suas roças e campos para criação, o que facilitava o sustento de suas famílias. Uma nova escola foi construída, ainda de madeira, mas já melhor do que a primeira que foi utilizada a partir de 1850. Em 1872 foi construído um novo prédio para a escola, este de alvenaria, que permanece de pé até hoje, sendo utilizado como museu. Logo os colonos trataram de construir também a igreja, que foi inaugurada em 1860. Ela era rústica, construída no estilo enxaimel e foi substituída 30 anos mais tarde pela bela igreja de alvenaria que é utilizada até hoje.

A assistência religiosa aos colonos foi um tanto problemática nos primeiros anos, pois não havia na região fartura de pastores qualificados para esta função. Quem primeiro deu atendimento religioso à Linha Nova foi o pastor Christian Sintz, que tinha a sua sede paroquial na localidade de Linha 48 e apenas visitava Linha Nova esporadicamente. Depois da morte deste pastor, em 1859, quem o substituiu foi Johann Georg Klein, aquele mesmo que foi personagem importante do episódio dos Mucker. Só em 1868, a comunidade passou a contar com um pastor realmente preparado para bem exercer esta função: Heinrich Wilhelm Hunsche (o avô do grande historiador) que veio diretamente da Alemanha para atender as comunidades de Linha Nova, São José do Hortêncio e Nova Petrópolis. Em virtude das melhores condições que lhes foram oferecidas pelos paroquianos de Linha Nova (e do fato desta localidade ficar em ponto mais central em relação às três comunidades que atendia) o pastor Hunsche optou por estabelecer-se em Linha Nova. Isto aconteceu em 1869 e trouxe uma grave conseqüência para ele. São José do Hortêncio era uma comunidade mais antiga e mais desenvolvida do que Linha Nova e os seus membros não concordaram com a idéia de ficar subordinados a uma paróquia sediada naquela outra comunidade.

Prosperidade em outras terras

A opção do pastor Hunsche por morar em Linha Nova deve ter sido muito influenciada por Georg Heinrich Ritter, que era líder da comunidade local (foi tesoureiro e depois presidente da Comunidade Evangélica). Foi na casa de Ritter que o jovem pastor Hunsche encontrou alojamento quando da sua chegada da Alemanha. Ritter era comerciante e foi um dos fundadores da comunidade evangélica de Linha Nova. Duas filhas suas, Elisabeth e Wilhelmine, casaram com os caienses Cristian Jacob Trein e Philipp Carl Trein, deixando descendentes ilustres. Sendo que Cristian foi sogro de A J Renner e Philipp foi avô do historiador Carlos Henrique Hunsche.

Em 1864, Georg Heinrich Ritter já era um homem muito próspero nos seus negócios e construiu um grande casarão que até hoje existe, na cidade de Linha Nova. Ali funcionava a venda e um salão de bailes no andar térreo e a residência da família (especialmente os dormitórios), no andar superior. E, no porão, funcionou a primeira cervejaria do estado, criada pelo próprio G Heinrich Ritter, que havia aprendido as técnicas de produção da cerveja na Alsácia. A cerveja Ritter fez muito sucesso e os filhos de Georg Heinrich a transformaram numa grande empresa de âmbito estadual, com filiais em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Em 1924, a empresa uniu-se a outras cervejarias gaúchas para formar a Continental que, em 1946, transformou-se na poderosa Brahma.

Porém, o progresso observado em Linha Nova nas primeiras décadas da sua existência não teve continuidade e isto se deveu ao isolamento em que ficou esta comunidade. Por lá não passava um rio que propiciasse a navegação e ficaram também distantes as estradas de ferro e as rodovias asfaltadas. Até hoje Linha Nova (assim como São José do Hortêncio) é uma das poucas cidades da região à qual não se pode chegar por rodovia asfaltada. O resultado disto foi que os filhos mais destacados da localidade foram se afastando dela. Para citar apenas alguns exemplos, os filhos de Heinrich Ritter foram desenvolver os seus negócios em Porto Alegre. O filho do pastor Hunsche, chamado Carlos Frederico, que formou-se em Medicina, estabeleceu sua clínica em São Sebastião do Caí. Linha Nova não oferecia condições favoráveis para um médico ou um empresário desenvolver a sua profissão. Somente depois da sua emancipação Linha Nova conseguiu ganhar um novo sopro de progresso, saindo do marasmo que durou quase um século..

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