As ruas centrais do Caí foram palco de um trágico conflito que resultou em 3 mortes e dez feridos Arquivo/FN

Professor de história e pesquisador, Paulo Daniel Spolier é caiense e interessado pela cultura da sua terra. Ele estudou o episódio do conflito armado ocorrido no centro do Caí em 1935 e fez um belo relato deste trágico evento:

“No Brasil, capitaneado desde 1930 por Getúlio Vargas, as tendências mundiais extremistas não demoraram a aparecer. Em 1922 era fundado o PCB (Partido Comunista Brasileiro), apenas cinco anos após a Revolução Russa. Em 1932, logo aos a Revolução Constitucionalista, um grupo de intelectuais entre os quais se destacavam Plínio Salgado (O Chefe Integralista) e Gustavo Barroso (ideólogo anti-semita), criaram a Ação Integralista Brasileira (AIB), definida como um movimento que apregoava o nacionalismo, assentados no lema “Pátria, Deus e Família” como elemento unificador nacional, tendo como símbolo a letra grega Sigma (Ó) e a saudação em tupi “Anauê!”.

Com militantes organizados em moldes paramilitares, possuindo, inclusive, fardamento próprio, sendo por isso conhecidos como os “camisas verdes” – lembremos aqui que esse tipo de organização demonstra, simbolicamente, é fato, uma inspiração nos movimentos nazi-fascistas europeus: na Itália, os seguidores de Mussolini eram os temidos “camisas negras” – os integralista chegaram a possuir no auge do movimento (fins de 1937) de 100 a 200 mil filiados (FAUSTO, 2000). O integralismo tinha como inimigos declarados os capitalistas internacionais e os comunistas, contando com apoio de setores da Igreja Católica e outros segmentos conservadores da sociedade.

O integralismo teve uma aceitação fervorosa entre as colônias de descendentes de imigrantes europeus no sul do país. Surgia como uma agremiação política e ideológica que, além de seguir o modelo europeu, era tolerada pelo regime varguista (o que não acontecia com os comunistas), já que o próprio Getúlio nutria simpatias por certos preceitos do nazi-fascismo. Além disto, o integralismo era, sobretudo, uma forma destes indivíduos serem aceitos como brasileiros natos e assim poderem participar de alguma forma do cenário político.

No Vale do Caí não foi diferente. Segundo Hélgio Trindade (1974), em 1936 já haviam núcleos integralistas nas localidades de Salvador do Sul e Arroio Canoas (hoje no município de Barão). Em 1937 foi oficializado o núcleo de São Sebastião do Caí.

Porém, a Ação Integralista Brasileira já possuía membros em São Sebastião do Caí há, pelo menos, dois anos antes da criação do núcleo na cidade.

O ano de 1935 foi um ano de grandes agitações na cidade de São Sebastião do Caí. A frente do governo da municipalidade estava, desde 1932, o Sr. Athos de Moraes Fortes, nomeado intendente pelo então Presidente do Estado, General Flores da Cunha.

No dia 25 de fevereiro, domingo, organizada por grupos que provinham de São Leopoldo, Novo Hamburgo e Caxias do Sul, aconteceu na cidade uma parada da Ação Integralista Brasileira, com discursos e um desfile com marcha dos “camisas verdes” pelas principais ruas da cidade.

O saldo desta passeata será sangrento: três mortos e dez feridos.

Em matéria, “furo” de reportagem da época, o Diário de Notícias de 26 de fevereiro de 1935 narra os acontecimentos fatídicos que iniciaram um ano particularmente violento, em matéria feita in loco por seus repórteres, algo inusitado para a época, devido às dificuldades de comunicação então existentes.
Segundo a matéria do jornal, os integralistas iniciaram suas movimentações na parte da manhã, desfilando pela cidade e depois se concentrando na Praça João Pessoa (hoje Praça Cônego Edvino Puhl), no centro da vila. De acordo com o depoimento do então prefeito em exercício, Aluísio de Moraes Fortes (irmão de Athos, o qual estava em Torres desde o dia 23, como consta informe na coluna social do Diário de Notícias do dia 24, informação confirmada pelo próprio Athos em telegrama a Flores da Cunha), após encerrar as atividades previstas, os integralistas espalharam-se pelas ruas centrais, soltando impropérios aos populares. Conta Aluízio:
— Como era natural, a atitude dos ‘camisas verdes’ provocou logo um sentimento de revolta entre os populares, alguns dos quais mostravam-se verdadeiramente indignados. Pouco depois das duas da tarde, palestrava com dois integralistas graduados, procurando fazer-lhes ver que a atitude de seus subordinados estava revoltando os populares, vi que junto a um dos caminhões onde embarcavam os integralistas se iniciara o conflito (Diário de Notícias, 26/02/1935, p. 05).

Pedro Lino dos Santos, habitante da cidade e ex-guarda municipal, que ocupava o posto de motorista da prefeitura, discutia com um integralista, sendo seguro por um guarda municipal conhecido como “Marinho”, na verdade Valdemar Fernandes Reis. Recuando cerca de quatro passos, o integralista (não identificado) saca um revólver da cinta e dispara um tiro que atinge a boca de Marinho, matando-o na hora.

Segue-se, então, cerrado tiroteio, que só irá ter fim com a intervenção do tenente Valdomiro Veledo de Albuquerque, delegado da Junta de Alistamento Militar e Comandante do Tiro de Guerra local, que, junto com alguns praças do Tiro, consegue controlar a situação. O tenente Veledo conta, ainda, que depois de ter rendido os integralistas, estes dispararam em correria, sendo seguidos pelos guardas municipais, que atiravam à queima-roupa nestes.”

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