O livro "A Saga dos Descendentes de Peter Fell", dedica um capítulo à localidade de Gauer-Eck, na qual viveram muitos membros desta família. Este foi um dos muitos casos de loteamentos de terras realizados no Vale do Caí na segunda metade do século XIX Reprodução/Internet

As três primeiras colônias de alemães surgidas no Rio Grande do Sul por iniciativa de empreendedores particulares foram criadas no ano de 1846, logo depois que terminou a Revolução Farroupilha e a vida social e econômica do Rio Grande do Sul voltou à normalidade. Tristão Monteiro foi o criador da colônia de Mundo Novo (atual Taquara), Guilherme Winter a de Winterschneis (atual Bom Princípio) e Miguel Kroeff a de Santa Maria da Boca do Monte (atual Santa Maria). Estes três empreendedores tiveram sucesso nas suas iniciativas e isto incentivou outros proprietários de terras a fazerem loteamentos semelhantes. Grandes fazendas que eram pouco utilizadas ou estavam totalmente abandonadas foram, assim, divididas em propriedades rurais não muito grandes mas de tamanho suficiente para que uma família nela fizesse suas plantações e criações.

No seu belo livro A Saga dos Descendentes de Peter Fell, o pesquisador José Adalíbio Fell dedicou um capítulo à localidade de Gauer-Eck, na qual viveram muitos membros desta família. Este foi um dos muitos casos de loteamentos de terras realizados no Vale do Caí na segunda metade do século XIX. Caso semelhante ao ocorrido em Pareci Novo, Harmonia, Tupandi, Maratá, Brochier e Poço das Antas. Vemos ali que a atual cidade de Dom Diogo, sede do novo município de São José do Sul, chamou-se inicialmente Gauer-Eck. O que, em alemão, significa Canto dos Gauer ou Cantão dos Gauer.

Falando-se hoje de Dom Diogo, pode se dizer que esta pequena cidade fica junto à estrada RST-470, que liga Montenegro a Salvador do Sul. Usando a linguagem da época, quando a estrada referida ainda não existia, José Fell localiza o Gauer-Eck a noroeste da antiga Fazenda Pareci e ao lado da Fazenda Maratá.

Pioneiros de Dom Diogo

Conta José Adalíbio Fell, no seu livro, que o local era conhecido anteriormente como Arroio Claro das Pedras. A colonização do local começou em 1864, quando vieram as três primeiras famílias de agricultores, todos oriundos de Baumschneis (hoje Dois Irmãos). Estes pioneiros eram João Gauer, José Hummes e João Müller. João Gauer destacou-se dos demais porque, além de agricultor, ele também era entendido em medição de terras e, por isto, foi encarregado de medi-las e vendê-las. Por isto a localidade acabou sendo conhecida como Gauer-Eck ou Picada Gauer. Aos poucos foram chegando outras famílias e, em 1870, já estavam estabelecidas por lá catorze famílias, todas católicas, de origem alemã e provenientes da Baumschneis. Os chefes destas primeiras famílias eram, além dos três já mencionados, Daniel Gallas, Pedro Führ, Jorge Lauren, Jacob Götz, Mathias Krein, Bernardo Lorenz, João Allf, João Ertel, Cristiano Larsen, João Pedro Bender e Nicolau Becker.

Logo no início da povoação os colonos se reuniam na casa de Daniel Gallas para fazer orações e, assim, preservar a sua fé religiosa. Mas já em 1871 eles começaram a construir uma capela que foi dedicada a São Francisco de Salles. Mesmo nome que a bela igreja da atual Dom Diogo guarda até hoje. E ali foi rezada a primeira missa, pelo padre Miguel Keller, que teve para isto de se deslocar, andando no lombo de cavalo ou de mula, desde a paróquia de São José do Hortêncio. Esta paróquia foi a primneira no estado a contar com padres que sabiam falar o alemão. A igreja do Gauer-Eck foi uma das mais antigas construídas na região. Originalmente ela foi feita de madeira, mas em 1936 esta igreja foi destruída por um raio e teve de ser reconstruída no ano seguinte.

A capela de São Pedro, na vizinha localidade de São Pedro do Maratá, foi construída por volta de 1875.

A marcha para o oeste

O livro A Saga dos Descendentes de Peter Fell, como não poderia deixar de ser, dá um especial destaque a esta famíia e diz que o Gauer-Eck acolheu várias famílias com este sobrenome. A primeira a vir para a localidade foi Carolina Fell que, depois de casar-se em 1884, ali se fixou com o marido Carlos Mossmann, na localidade de Linha Bonita.Carolina era a oitava filha do primeiro Fell emigrado da Alemanha para o Brasil. Em 1891, veio para a região Pedro Fell Filho, que casou com Catarina Becker, filha do pioneiro Nicolau Becker. E vieram ainda Nicolau Fell, com sua esposa Izabel Seewald e o filho caçula do patriarca, chamado Daniel Fell, que se casou com Magdalena Först e foi próspero agricultor em Dom Diogo.

E acabou vindo morar também na região, em São Pedro do Maratá, o genearca Peter (Pedro) Fell. Ele era alemão da Baviera e havia chegado ao Brasil em 1847, ainda solteiro, na companhia de sua mãe Elizabetha e do padrasto Jacob Lenhardt. Jacob ganhou terras do governo brasileiro nas imediações da atual cidade de Picada Café e Peter viveu ali os primeiros anos da sua vida no Brasil. Depois casou-se com Margareha Weber, da localidade de Picada 48 (hoje pertencente ao município de Lindolfo Collor) e o casal foi viver numa área de 60 hectares na encosta de um morro, na localidade de Picada Schneider, no atual município de Presidente Lucena. Depois de muitos anos de atividade agrícola, esta terra perdeu a sua fertilidade e Peter resolveu mudar-se para terras novas, no Vale do Caí, onde alguns de seus filhos já haviam se estabelecido. Naquela época, como havia muita fartura de terras ainda não utilizadas para a agricultura, os colonos não se preocupavam muito em manter a fertilidade da terra com o uso de adubos. Quando, com o tempo, a terra ficava cansada e perdia a sua fertilidade eles se transferiam para terras novas.

Primeiros moradores

José Hummes, um dos três primeiros colonos estabelecidos no Gauer-Eck, foi o primeiro professor da localidade. Consta também que a primeira escola foi construída somente em 1890, chamando-se Escola Particular São Francisco de Salles. Mas é provável que, antes disto, José Hummes dava suas aulas na sua própria casa ou no prédio que também servia de capela.

Os primeiros colonos se dedicavam, principalmente, à produção de milho, feijão e mandioca. Com o tempo, passaram a criar porcos, aves e gado, como também à produção de queijos.

Um interessante trabalho escolar realizado pela jovem Cristiane Andres Gallas, nos fornece informações preciosas que ela colheu sobre a antiga Gauer-Eck ouvindo pessoas idosas.

Segundo suas pesquisas, João Gauer foi o primeiro a chegar à localidade, quando ela era ainda desabitada e teve de enfrentar, inclusive, conflito com os índios. Mas as terras logo se tornaram atraentes para outros colonos devido à sua fetilidade e à proximidade com os portos de Montenegro e São Sebastião do Caí, para onde os colonos destinavam a sua produção. Com a abertura da estrada Buarque de Macedo, que ligava o porto de Montenegro à região serrana (para onde foram destinados colonos vindos da europa – inicialmente germânicos, depois italianos) aumentou o interesse de novos colonos se fixarem na região e foi se desenvolvendo, também, a povoação que hoje se transforma na cidade de Dom Diogo. Foi construído ali um pequeno hotel, pertencente a Adão Reinher (na casa onde depois residiu Silfredo Führ). Outro hotel, este de dois andares, ficava perto da primeira ponte do Arroio Claro das Pedras e pertencia a um homem cujo sobre-nome era Jacomasi. A existência destes hotéis dá uma idéia do intenso fluxo que passou a haver nesta estrada depois que um grande número de imigrantes italianos fixou-se na Serra e passou a utilizá-la para transportar a sua produção até os portos do rio Caí.

Hotéis próximos aos rios

Lembram os antigos que os viajantes que pernoitavam nos hotéis da antiga localidade de Gauer Eck amarravam seus burros e cavalos na frente das casas e compravam pasto dos moradores. No princípio não existiam pontes sobre os arroios e rios e os viajantes tinham de atravessá-los a vau, no lombo do cavalo ou do burro ou com a ajuda de um barqueiro. Quando o arroio estava alto em virtude das chuvas, a travessia era impossível e, em razão disto, costumavam instalar-se hotéis nestes locais. As pessoas tinham de esperar por ali até que o arroio baixasse o suficiente para permitir a travessia. Geralmente eram os comerciantes do lugar que alugavam quartos para os viajantes. Guilherme Gauer foi um dos primeiros comerciantes do Gauer-Ecke a sua casa comercial situava-se no local onde hoje se encontra o centro telefônico de Dom Diogo. O grande fluxo da estrada Buarque de Macedo fez com que o Gauer-Eck prosperasse muito no fim do século XIX e início do século XX. Mas depois que foi inaugurada a estrada de ferro ligando Montenegro à Serra, em 1909, o movimento na estrada de rodagem diminuiu muito e isto provocou um período de decadência na localidade.
Num mapa do município de Montenegro elaborado em 1937 ainda se pode ver a atual Dom Diogo registrada com a sua antiga denominação de Gauer-Eck. A mudança de nome ocorreu pouco depois, certamente em virtude da guerra contra a Alemanha, que fez o governo brasileiro proibir que cidades e localidades brasileiras continuassem com nomes alemães. Com o nome Dom Diogo foi feita homenagem a um dos primeiros governadores do Rio Grande do Sul: Dom Diogo de Souza.

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