Durante o período que estudou em Porto Alegre, Mário Leão foi colega de de pessoas ilustres como Leonel de Moura Brizola, Paixão Cortes e Barbosa Lessa no Colégio Júlio de Castilhos. Arquivo/FN

Nascido em 24 de fevereiro de 1923, o doutor Mário Carlos Leão já havia completado os seus 83 anos de idade, quando concedeu uma entrevista ao Fato Novo. Ele estava bem de saúde e, embora aposentado, costuma comparecer diariamente ao seu escritório de advocacia no centro da cidade. Mas, além de advogado, ele agora se destaca também como testemunha. Uma testemunha viva da história do Cai e da região.Sua excelente memória é um verdadeiro tesouro para quem estuda a história regional. E o doutor gostava de falar sobre as coisas do passado. Culto e inteligente, ele tem discernimento para filtrar os fatos importantes e, como sempre esteve envolvido nos grandes acontecimentos, viveu experiências que poucos outros caienses tiveram a oportunidade de acompanhar.

Seu bisavô era um judeu holandês que migrou para o Brasil no fim do século XIX. Ele se chamava Abraham van Leuw e foi marceneiro na cidade de Rotterdam. No Caí chegou já adulto. Ele era o único judeu na cidade e, quando faleceu, criou-se um problema, pois não era permitido enterrar uma pessoa que não fosse cristã no cemitério local. Diante disto, o intendente (prefeito) da época, Paulino Inácio Teixeira, resolveu secularizar o cemitério.Os filhos do judeu Abraham (Miguel e André, que chegaram ao Rio Grande do Sul ainda crianças) converteram-se ao catolicismo e um de seus netos, chamado Marcos José de Leão (depois de trabalhar no Caí com seu tio André, primeiro advogado caiense e homem influente na cidade) tornou-se escrivão no cartório do então distrito caiense de Feliz.

Marcos José de Leão foi nome de grande destaque na comunidade e hoje denomina uma das principais avenidas da cidade. Já escrivão na Feliz, Marcos casou-se com a principiense Carolina Breitenbach. Os irmãos de Marcos José de Leão eram João (o mais velho, que estabeleceu-se em Nova Petrópolis), Amália (casada com Otacílio Coelho, avó do craque futebolista Mauro Coelho e bisavó do vereador Piava e de Maurinho Coelho) e Ernesto (que foi administrador dos Frigoríficos Sulriograndeses em Lajeado).Mário Leão foi um dos dez filhos do casal Marcos e Carolina. Ele teve uma educação primorosa (para os padrões da época). Além de ter aulas com a professora Saturnina Ruschel, no colégio estadual, estudava também na escola paroquial, onde as aulas eram em alemão, ministradas pelo professor José Rücker (tio do contabilista caiense Valdemar Rücker).

Ainda adolescente, foi estudar em Porto Alegre, no Colégio Rosário, onde estudou cinco anos em regime de internato. Depois ingressou no colégio estadual Júlio de Castilhos e, para ajudar a cobrir as despesas, começou a trabalhar no escritório da empresa de navegação União Fluvial do Caí. Um tio do doutor Mário chamava-se Roberto Leão e era sócio desta mesma empresa, juntamente com Reinaldo Kayser e “Febronha” Berwanger. Mário trabalhava num escritório da empresa situado no cais do porto e a sua função era de agente. Ele tinha, então, 19 anos e estudava no Júlio de Castilhos à noite. Foi colega de pessoas ilustres como Leonel de Moura Brizola, Paixão Cortes e Barbosa Lessa. Os dois últimos, naquela mesma época, criaram o Movimento Tradicionalista Gaúcho, que hoje se espalha pelo mundo. Depois, mantendo sempre o seu emprego na União Fluvial, Mário fez a faculdade de Direito, convivendo então com outras destacadas figuras, como o ex-governador Sinval Guazelli e o ex-prefeito portoalegrense Sereno Chaise.

No período em que trabalhou e estudou em Porto Alegre, Mário Leão fez inúmeras viagens nas gasolinas (barcos) da União Fluvial. O barco partia de Porto Alegre ao entardecer e só chegava ao Caí no amanhecer do dia seguinte. Os passageiros eram, principalmente, comerciantes caienses, como Didi Rubenich. A viagem durava a noite toda e os passageiros se distraiam jogando cartas. Depois iam dormir em beliches. Quando o rio estava cheio e a correnteza era mais forte, demorava mais. Em maio de 1941 aconteceu a maior enchente do Guaíba, cujo nível subiu 4,73 metros acima do normal. Grande parte da cidade ficou alagada, deixando 40 mil pessoas flageladas. Mas a navegação não foi interrompida. Até porque era a única maneira de chegar a Porto Alegre na ocasião. A estrada de rodagem ficou interrompida em diversos pontos, inclusive nas imediações do aeroporto Salgado Filho (então Campo de Aviação São João). Para pegar a gasolina da União Fluvial, Mário entrava na Galeria Chaves pela rua dos Andradas (livre da enchente neste ponto) e saía na outra extremidade da galeria, onde caícos faziam o transporte de passageiros. O doutor lembra que o remador do caíco que ele utilizou gritava “taxi” oferecendo o seu serviço. De caíco, ele ia até o Mercado Público, onde a gasolina ficava atracada. A navegação no rio Caí, inclusive para passageiros, era regular até o início da década de 50 e só deixou de ser praticada depois do asfaltamento da RS-122 até o Caí, no início da mesma década.

Continua…

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