Em entrevista para o Fato Novo, o doutor Cassel lembra fatos ocorridos nos primeiros anos da sua longa experiência como médico. Arquivo/FN

Natural de Santa Maria, onde nasceu em 26 de fevereiro de 1010, o doutor Bruno Cassel veio para o Caí poucos anos depois de formar-se médico.

Chegou à cidade em 1938, pouco mais de dois anos após o seu casamento com dona Maria das Mercês. Veio substituir o doutor Krekel, que voltava para a Alemanha.

Ficou sendo o único médico da cidade, além do doutor Hunsche, um médico idoso que clinicava na cidade há 40 anos.

Nesta entrevista, o doutor Cassel lembra fatos ocorridos nos primeiros anos da sua longa experiência como médico.

Inicia falando sobre os problemas enfrentados por seu colega, o doutor Hunsche, por ocasião da guerra entre a Alemanha e os países aliados, entre os quais se incluiu o Brasil.

Conta o doutor:
“O filho do doutor Hunsche (Calos Henrique Hunche, que veio a tornar-se o maior historiador da imigração alemã para o Rio Grande do Sul) estava na Alemanha durante a guerra. E o velho, que não tinha nada a ver com a história, sofreu arbitrariedades de parte da polícia. Invadiram a casa dele, queimaram livros científicos.

Nessa ocasião se fez muita coisa errada por aqui. Houve muita perseguição contra os colonos que só sabiam falar o alemão e, em virtude da Alemanha ser – naquele momento – uma nação inimiga, ficaram proibidos de falar essa língua. E eles não tinham culpa de não saber o português. Não tinham escola para aprender. Nas escolas pastorais, que existiam na época, o que se estudava era o alemão mesmo. Eu mesmo fui pressionado para não falar o alemão no meu consultório. Mas eu reagi a isso. Houve até um conflito aí no Clube, por causa dessa história. Aconteceram muitas injustiças. O seu Osvino Müller chegou até a ser preso, naquela época.

E nem foi por ele manifestar alguma simpatia pela Alemanha ou pelo nazismo. Acontece que, naquela época, havia um sistema de controle de preços (uma espécie de SUNAB) que era administrado pelo prefeito e pelo delegado de polícia. O Osvino havia comprado havia comprado querosene e açúcar acima do preço de tabela. Ele avisou, então, o prefeito Egydio Michaelsen que também ia vender acima do preço estabelecido pelo tabelamento. Mas daí, como o delegado já estava de olho nele (porque o Osvino não escondia sua simpatia pelos alemães), pegou uma notinha como prova de que as vendas estavam sendo feitas acima do acima do preço permitido. Predeu o Osvino e levou ele pra Porto Alegre.
O Osvino não era nazista. Ele fazia parte de um pequeno grupo que, como eu, era francamente contrário ao nazismo, mas defendia os colonos contra as injustiças que a polícia fazia, então, contra eles. Por isso o delegado estava de má vontade com o Osvino.

No dia da prisão, a esposa do Osvino foi me avisar e eu fui a Porto Alegre para ver se conseguia soltar ele. Fiquei preocupado porque o Osvino era um homem doente, asmático.
Fui lá e falei com o célebre Aurélio Py, coronel do exército, um sujeito de maus instintos. Ele me disse um mundo de desaforos. Me chamou de alemãozinho. Eu, então, respondi: “Olha. Talvez eu seja mais brasileiro do que tu. Porque eu, pelo menos, produzo, trabalho, tenho uma profissão. O meu tataravô é que veio da Alemanha. O meu bisavô já nasceu no Brasil.” Por sorte eu encontrei, naquele dia, um oficial da aviação aposentado, um velho conhecido de Santa Maria, muito meu amigo. Ele resolveu o problema e soltaram o Osvino.
Nesse episódio, o compadre Egydio Michaelsen cometeu uma falha. Coitado. Ele já morreu e não pode se defender. Mas o doutor Egydio negou que tivesse autorizado ao Osvino fazer a venda por preço superior ao da tabela.

Aliás, um fato parecido aconteceu também com o tio dele, o velho Michaelsen, de Nova Petrópolis. Ele era o encarregado do correio de lá e aconteceu que foi uma velhinha perguntar se tinha carta pra ela. Mas perguntou em alemão. Alguém ouviu e denunciou. Pegaram a velhinha e a trouxeram para a delegacia do Caí, que ficava aqui perto da prefeitura. De novo eu tive de intervir. Por sorte tinha, aqui no Caí, por aquela época, um juiz muito camarada: doutor Alcina Lemos. Nós, então, conseguimos dar um jeitinho e soltamos a velhinha. Falar alemão, naquela época dava cadeia.

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