Cardeal de Bom Princípio foi escolhido um dos 20 gaúchos que marcaram o século XX Reprodução/FN

O Vale do Caí, que já teve dois filhos seus cotados para tornarem-se Papa, poderá ser também – um dia – a terra onde nasceu um santo.

Este homem – já falecido – que mereceria a consagração como santo da igreja se chamava Alfredo Vicente Scherer e nasceu em 5 de fevereiro de 1903, na localidade de Forromeco (Bom Princípio), então na época pertencente ao município de Montenegro.

O menino destacou-se muito na escola da localidade, onde estudou de manhã e de tarde, recebendo aulas do rigoroso e exigente professor Johan Gehlen (imigrante nascido na Alemanha). Alfredo Vicente foi sempre o primeiro colocado nesta escola básica, do primeiro ao último ano. Depois disto ele ingressou no Seminário de São Leopoldo, onde despertou a atenção de um mestre muito especial: o Padre Reus. Pessoa iluminada, o padre-professor vislumbrou no seu jovem aluno um destino fulgurante e passou a dar-lhe atenção especial. O Padre Reus exigia tanto do garoto nos estudos que este sentiu-se perseguido e pensou até em abandonar o estudo no seminário. Mas, ouvindo o conselho dos pais, persistiu e acabou entendendo as razões do seu mestre e aproveitando bem a sua disposição de dar-lhe uma formação especial.

Jovem Padre

Aos 22 anos, Alfredo Vicente concluiu seus estudos no Seminário de São Leopoldo como primeiro colocado na sua turma e foi distinguido com o privilégio de ir estudar em Roma, onde ficou por três anos aprofundando seus conhecimentos. Tanto estudo fez do coloninho do Forromeco um homem de extraordinária cultura, com domínio do alemão, francês, latim, italiano e português. Ainda em Roma ele escreveu sugerindo que o nome da sua localidade natal fosse mudado para Santa Teresinha do Forromeco. Ideia que foi acatada pelos seus conterrâneos.

Aos 82 anos Dom Vicente assumiu a Santa Casa de Misericórdia, que estava agonizando em dívidas e com seus prédios em ruínas. Ele mobilizou a comunidade gaúcha e transformou o velho hospital arruinado num avançado centro médico. Em homenagem póstuma, parte do complexo recebeu o nome do padre natural de Bom Princípio
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Ao retornar ao Brasil, o jovem sacerdote tornou-se secretário particular do bispo Dom João Becker, em Porto Alegre. Em 1930, quando os gaúchos lideraram uma revolução que resultou na tomada do poder nacional pelo governador gaúcho Getúlio Vargas, o jovem padre acompanhou, como capelão, as tropas que tomaram o Rio de Janeiro. Desde aquela época surgiu uma amizade entre Getúlio e o sacerdote, que sempre foi chamado para celebrar os batizados e casamentos ocorridos na família do Presidente da República.

Quando voltou para o Rio Grande do Sul, o padre Alfredo Vicente atuou em paróquias do interior até assumir, em 1935, a paróquia do bairro São Geraldo, uma comunidade de operários. Mostrou ali ser um sacerdote de grandes iniciativas e desenvolveu a sua preocupação social.

35 anos à frente da igreja

Em 1945, quando o arcebispo metropolitano Dom João Becker já estava muito doente, a Igreja já via no padre Alfredo Vicente como a pessoa mais indicada para sucedê-lo e tratou de promovê-lo para esferas mais elevadas da hierarquia eclesiástica. Em 1946 Dom João faleceu e, no ano seguinte, o padre Vicente foi sagrado Bispo e, no mesmo dia, consagrado como Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.

Ele passou a ser conhecido, então, como Dom Vicente Scherer. Ao longo de 35 anos ele comandou a Igreja no Rio Grande do Sul, tornando-se uma das mais notáveis personalidades gaúchas de todos os tempos. Mostrou coragem nos momentos mais aflitivos, como aquele em que – no ano de 1964 – a Força Aérea Brasileira recebeu ordem de bombardear o Palácio Piratini, onde o governador gaúcho Leonel de Moura Brizola resistia ao golpe de estado contra o presidente João Goulart. Dom Vicente se postou diante do Palácio Piratini e mandou avisar que se os aviões bombardeassem o prédio ele morreria junto.

Como bispo ele fundou 150 paróquias, ordenou 493 padres e 15 bispos e ainda sagrou mais de cem freiras e irmãos. O seu exemplo frutificou, a ponto de tornar a pequena Santa Teresinha e localidades vizinhas o maior celeiro de vocações religiosas do país.

Mas além da intensa preocupação com a religião, Dom Vicente também se ocupava muito com as questões sociais. Preocupou-se principalmente com a situação dos agricultores que, na sua época, estavam sendo expulsos das suas terras para uma vida marginal, na periferia das grandes cidades. Em 1963 ele criou a Frente Agrária Gaúcha, o que resultou na formação de 357 sindicatos congregando 1,5 milhão de agricultores e trouxe grandes benefícios para toda esta gente que, do contrário, não teria outra alternativa se não o êxodo e a marginalidade.

Octogenário e lutador

Aos 80 anos, Dom Vicente pediu ao Papa que o liberasse das atividades eclesiásticas, pois ele pretendia assumir uma outra missão importante. A Santa Casa de Misericórdia, que foi o primeiro hospital do estado (fundada em 1800) estava a ponto de ser fechada. Com os prédios arruinados e total carência de recursos, atendendo apenas a indigentes e sem dispor de remédios para ministrar a eles, o hospital agonizava. Já se falava até de demolir os prédios para usar o terreno para a instalação de um Shopping Center. Em 1982 o Papa concedeu a aposentadoria a Dom Vicente e ele, com 82 anos, assumiu mais esta grande missão. Viveu mais onze anos, lutando contra sérios problemas de saúde, mas conseguiu, neste seu final de vida, mais um feito maravilhoso. Com a sua força moral ele mobilizou a comunidade gaúcha e transformou o velho hospital arruinado num dos mais avançados centros médicos do planeta. Hoje a Santa Casa conta com 900 médicos, 4.900 funcionários, 1.175 leitos, 160 consultórios e 30 salas de cirurgia. Tornou-se um complexo hospitalar com 11.200 metros quadrados de área. A Santa Casa é o maior hospital do Brasil e por ela circulam, diariamente, 20 mil pessoas. Nos últimos oito anos foram atendidas ali cerca de 2.500.000 pessoas. Equipado com o que há de mais moderno na Medicina e contando com profissionais de nível internacional, a Santa Casa é o mais avançado hospital brasileiro para realização de transplantes.

Memorial no Complexo Hospitalar Santa Casa, em Porto Alegre, homenageia Dom Vicente Scherer
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O menino do Forromeco morreu no dia 9 de março de 1996, recebendo homenagens de milhões de pessoas às quais ele beneficiou com sua obra maravilhosa.

Diante de uma vida assim tão admirável, o bispo Dom Antônio Chauiche, que trabalhou com ele na arquidiocese como Bispo Auxiliar e hoje é secretário do Papa, no Vaticano, não teve dúvidas em declarar: “Se houver uma iniciativa no sentido de buscar fundamentos para a canonização de Dom Vicente, eu serei o primeiro a dar apoio a ela”.

Nada mais natural e justo do que isto. Pois se a Igreja exige para a canonização de um santo que ele tenha realizado alguns milagres, salvando a vida de algumas pessoas enfermas, é mais razoável ainda que se canonize um homem santo como este que lutou pelo bem estar dos pobres usando para isto suas últimas forças. Dom Vicente produziu milagres que já salvaram, e vão salvar no futuro, as vidas de milhões de pessoas.

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