O jazigo da família Guimarães se destaca no cemitério do Caí Arquivo/FN

Os caienses pouco sabem sobre a vida de um dos mais importantes personagens da sua história. Seu nome foi dado até a uma rua da cidade (a Coronel Guimarães), mas poucos sabem que foi ele o principal responsável pela criação da localidade que veio a tornar-se a cidade de São Sebastião do Caí. Ele era um dos donos das terras onde hoje situa-se a cidade e foi ele que teve a iniciativa de vender terras para os colonos alemães, fazendo aumentar a população do local. Ele foi comerciante e líder político, sendo o principal articulador do movimento de emancipação de São Sebastião do Caí. Era tão importante que, no seu nascimento, a localidade que deu origem a esta cidade era conhecida como Porto do Guimarães.

O que sabemos de Antônio José da Silva Guimarães Junior deve-se, em grande parte a pesquisas realizadas pelo monsenhor Ruben Neis.

Filho de português
O pai do Coronel Guimarães chamava-se Antônio José da Silva Guimarães e era português. Nasceu na freguesia de São Miguel de Creixomil, pertencente ao conselho de Guimarães. Localidade situada a três léguas da cidade de Braga. Era filho de João Manoel da Silva e Josefa Maria. O sobrenome de Antônio, portanto, era apenas Silva. Mas, como era costume na época, os portugueses que imigravam para o Brasil adotavam aqui o nome da sua região de origem como um sobrenome a mais. Com certeza, dava distinção à pessoa ser ela proveniente da sede do império e ficava bem ostentar isto no próprio nome. Daí existirem hoje tantas pessoas com sobrenomes que evocam localidades portuguesas, como Coimbra, Braga, Lisboa, Azambuja e Guimarães.

Antônio José nasceu em 24 de janeiro de 1773 e, ainda menor de idade, deixou sua terra indo para Lisboa. Tornou-se caixeiro na casa comercial de um tal de Gilmestre, na localidade de Madalena. E lá ele ficou, pelo menos, até o ano de 1792.

De nome novo
Quando veio de Portugal para o Brasil, Antônio José da Silva passou a ser chamado de Antônio José da Silva Guimarães. Ele casou-se, em Porto Alegre, com Maurícia Antônia de Oliveira, que era uma moça de família distinta. Seu pai era o capitão Felisberto Pinto Bandeira, irmão do grande comandante Rafael Pinto Bandeira. O grande herói da conquista do território riograndense para os lusos era, portanto, tio de Maurícia. O casamento de Antônio José com esta moça distinta aconteceu em 18 de fevereiro de 1798, quando Antônio recém havia completado seus 25 anos. Provavelmente, ao chegar ao Rio Grande do Sul, ele participou de campanhas militares comandadas pelo grande general Rafael Pinto Bandeira. E deve ter se distinguido no campo de batalhas, para merecer a honra de casar com uma representante da família de grandes militares.

Antônio e Maurícia estabeleceram-se em Porto Alegre, onde foram donos de uma grande propriedade chamada Chácara do Cristal, situado à margem direita do arroio Cavalhada. Tiveram 14 filhos, entre os quais o Barão de Jaguarão.

Parente Barão
O caiense Antônio José da Silva Guimarães Junior era irmão do Barão de Jaguarão, que chamava-se José Antônio da Silva Guimarães e (conforme consta no Dicionário das Famílias Brasileiras, de Carlos Eduardo Barata e A H Cunha Bueno, nos verbetes Jaguarão, Barão e Família Silva Guimarães) nasceu na Chácara do Cristal, em Porto Alegre, no ano de 1817, e faleceu no Rio de Janeiro em 28 de julho de 1880. Era filho de Antônio José da Silva Guimarães e de Rafaela de Oliveira Pinto Bandeira, descendente do célebre brigadeiro Rafael Pinto Bandeira. Casou com Josefina Angélica de Ourique Jacques, filha de Antônio Cândido Jacques, estancieiro de Rio Pardo, e de Maria Josefina Mendes Ourique. Sentou praça como 1° cadete em 1836, sob as ordens de seu tio, o Marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, chegando ao posto de Tenente-General em 1878. Foi comandante da divisão de ocupação do Paraguai, de 1871 a 1875, assumindo depois o comando das armas do Rio Grande do Sul. Sua carreira foi quase toda feita nos campos de batalha, participando das campanhas Argentina, Uruguai e Paraguai. Era Conselheiro de Guerra, Grâ-Cruz da Ordem de Aviz, Dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, Grande Dignitário da Rosa e Comendador da de Cristo. Recebeu a medalha de Mérito e Bravura Militar, assim como as medalhas de Monte-Caseros e das campanhas do Uruguai e Paraguai. Ele foi agraciado com o título de Barão de Jaguarão.

Duas vezes viúvo
Menos ilustres do que o Barão de Jagurão, mas mais importantes para a história caiense, são os seus irmãos Antônio José da Silva Guimarães Júnior e Quintino José da Silva Guimarães.

Antônio José Nasceu em Porto Alegre, em 2 de junho de 1809. Casou três vezes. Sua primeira esposa foi Deolinda Antônia Rodrigues, que não teve filhos e morreu na cidade de Rio Grande, sendo sepultada na igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Seu segundo casamento ocorreu em Porto Alegre, em 8 de 1838, quando tinha 29 anos. Sua segunda esposa foi Guilhermina Tomásia da Silva Reis, nascida em Montevidéu, que era filha do Coronel Salustiano Severiano dos Reis e de Isabel Tomásia Thompson. De novo, o casamento foi breve. pois Tomásia faleceu, em Porto Alegre, no dia 19 de agosto de 1844, com 25 anos de idade, menos de seis anos depois do casamento. O casal teve apenas uma filha: Antônia Guilhermina da Silva Guimarães.

Uma das irmãs de Antônio José, falecida aos 19 anos de idade, era casada com Bento José Duarte Júnior, que era baiano e filho da viúva Theodora Antônia de Oliveira. Este casamento aproximou Antônio José da família de Dona Theodora, que era proprietária de uma grande área de terras em São Sebastião do Caí. Área que correspondia a metade da propriedade original de Bernardo Mateus e tinha, portanto, cerca de 136 hectares.

Pela década de 1840, Antônio Guimarães transferiu-se para o Caí. Sabe-se que ele adquiriu metade das terras de Dona Theodora e, provavelmente, também administrou a propriedade desta senhora, que já era viúva.

Em 16 de agosto de 1848, Antônio casou-se com Maria Faustina de Alencastro, filha de Inácio José de Alencastro e Luciana de Almeida Centeno, proprietários da grande Fazenda Boa Vista, em Capela de Santana. Esta propriedade tinha 9 mil hectares e os seus proprietários (tanto o marido como a esposa) eram descendentes de Jerônimo de Ornelas (o primeiro colonizador da área onde hoje situa-se Porto Alegre).

Antigos proprietários de terras no Caí
No ano de 1848, Antônio Guimarães criou – em sociedade com Manuel dos Santos – um empreendimento imobiliário: a venda de lotes para colonos. Os lotes foram vendidos principalmente para imigrantes alemães e para filhos dos imigrantes vindos para o Brasil décadas antes.

E assim o atual território da cidade do Caí e seus arredores, que antes tinham muito poucos moradores, passou a ser mais habitado e foram sendo criadas as condições para que a cidade fosse criada.

Mas a venda dos terrenos não deve ter ocorrido muito rapidamente, pois documentos da época apontam que, no ano de 1856, os proprietários de terrenos no local eram ainda os mesmos: Francisco Mateus (filho do primeiro caiense, Bernardo Mateus), tendo como seus vizinhos – ao norte – Antônio José da Silva Guimarães e depois os herdeiros de Dona Theodora, que havia falecido dois anos antes. Mais ao norte ainda, havia as terras dos herdeiros de Manuel dos Santos Borges. Este, que era português de nascimento e havia falecido no ano anterior, tinha sua propriedade no Caí desde 1808.

Bernardo Mateus e Manuel dos Santos foram vizinhos por muitos anos, até que Mateus vendeu metade da sua propriedade a Dona Theodora. A parte vendida foi a metade norte, que ficou situada entre as terras de Mateus e Santos. Posteriormente, Dona Theodora vendeu metade da sua propriedade a Antônio Guimarães.

Antônio Guimarães e seus descendentes
Antônio José da Silva Guimarães foi comerciante no Caí, assim como seu irmão Quintino. E foi, também, vereador do município de São Leopoldo, ao qual o território do Caí era então pertencente. Foi de São Leopoldo que o Caí se emancipou, em 1875.

Não chegou, porém, a ver a localidade que ele muito contribuiu para criar tornar-se cidade e sede municipal. Ele faleceu em 7 de dezembro de 1872, em Porto Alegre.

A terceira esposa de Guimarães, Dona Maria Faustina, também morreu jovem, com 43 anos. Mas deixou oito filhos menores de idade, que são as raízes da importante família Alencastro Guimarães. Seus nomes eram Lourenço, Luciana, Leopoldina, Inácio, Antônio, Alfredo, Pedro e Espiridião. Sendo que os dois últimos permaneceram solteiros, segundo o relato do monsenhor Ruben Neis.

Alceu Masson, na sua monografia Caí, registrou algo sobre quatro filhos de Antônio Guimarães. Inácio de Alencastro Guimarães faleceu no Rio de Janeiro, como marechal reformado. Lourenço de Alencastro Guimarães foi tenente coronel da Guarda Nacional e exerceu os cargos de juiz de paz e primeiro suplente de juiz municipal no Caí. Pedro de Alencastro Guimarães foi vereador na Câmara Municipal de São Sebastião do Caí. Não fez referência a Luciano e Alfredo. Estes, possivelmente, morreram jovens ou não se destacaram.

Ainda segundo Alceu Masson, Inácio de Alencastro Guimarães teve os filhos Sebastião (coronel-médico reformado), Inácio (coronel reformado), Manoelito (farmacêutico), Antônio (tenente coronel comandante do 7° Regimento de Cavalaria Independente. Lourenço de Alencastro Guimarães teve como filhos Inácio, Carlos e Antônio. E Pedro teve os filhos Adolfo (secretário da embaixada brasileira na Argentina) e o major Napoleão Alencastro Guimarães, que foi diretor geral do Ministério da Viação e Obras Públicas, além de senador e ministro de estado.

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