No ano de 1981 publicamos, no jornal Momento, da cidade de Portão, esta crônica que procura captar os sentimentos (e a linguagem) do homem do interior. Um retrato que representa melhor o gaúcho de origem lusa, mas que também tem muito a ver com o homem rio-grandense da primeira metade do século XX, seja qual for a sua origem étnica.

Homens que nasceram em ambiente agrário e, na maturidade, viveram no meio urbano. O que aconteceu não apenas pelo êxodo rural, mas também pelo aumento da densidade demográfica, que transformou a periferia das cidades, que antes eram zona rural, em bairros populosos.

Modéstia a parte, eu não nasci na cidade. Nasci no campo e tenho orgulho disso, pois lá o gaúcho é gaúcho mesmo. Com o no fim. Um o minúsculo, mas resolvido.

Aqui na cidade, a coisa tá cada vez pior. Eu já vivo por aqui há anos e fico cada vez mais desiludido. Mas nunca tinha me acontecido de passar o vexame que passei hoje de manhã.
Imagina que eu fui cedinho no armazém porque precisava comprar papel higiênico. Não por mim, que não sou destas frescuras. Mas a minha mulher diz que as visitas fazem cara feia quando têm de se limpar com o Correio do Povo. Bobagem. Eu acho até bom, porque enquanto eu fico ali sentado, esperando, ainda posso ler alguma notícia que tinha ficado pra trás. Tem gente que fala que tinta de jornal faz mal pra saúde. Bobagem. Capaz que o pessoal da Caldas Júnior ia usar uma tinta perigosa. Eles sabem a responsabilidade que têm. Sabendo como o Correio é usado por todo este interior do Rio Grande, não iam usar uma tinta qualquer.

Mas, pra não desagradar as visitas, resolvi comprar o tal de papel higiênico. O armazém que tem aqui perto de casa é desses modernos. Desses que o caixeiro – muito do vadio! – fica só ali sentado no caixa e a gente é que tem que sair juntando as coisas. Tive de procurar um bocado. Mas, finalmente, achei. Não foi por menos que demorou. Os rolos estavam todos embrulhados dois a dois em plástico colorido. E eu, desse jeito, nunca tinha visto. Foi daí que eu me abaixei para pegar um pacote. Apanhei o primeiro e li a marca: Soft Touch. Larguei de lado. “Esse é para as damas”, pensei. Conheço um pouquinho de inglês e deu pra entender que soft touch significa toque suave. Peguei outro pacote. A marca desse era Delicado. Peguei ainda um outro e lá estava escrito: 40 metros de suavidade.

A essa altura, eu quase me virei pro bodegueiro e gritei:
– Como é?! Não tem papel pra macho nesse bolicho?

Assim na linguagem dos pagos, pra manifestar a minha indignação de gaúcho.
Mas me contive. Eu sei que o homem não ia me entender. Todo mundo aqui na cidade anda agora com as ideias assim, meio virada. Esse mundo tá perdido mesmo. Não tem arrumação. No fim, pra não sair sem levar nada, eu peguei um pacote que me pareceu menos “afrescalhado” e fui até o balcão. Ainda fiquei encabulado quando mostrei o pacote pro homem ver o preço. Devia estar com a cara meio vermelha. Mas ele, com toda a naturalidade de quem faz aquelas coisas todos os dias, só me cobrou o que estava marcado sem mostrar nenhuma estranheza. Como se fosse normal um homem como eu, senhor dos meus bigodes, andar comprando um produto desses.
Sem-vergonhice, como já dizia o meu falecido avô, é coisa que acostuma.
E o pior foi que o bodegueiro não teve nem o pudor de embrulhar a coisa. Tive de sair na rua com o pacote escondido debaixo do braço, do jeito que dava.

Agora o papel está lá no banheiro, esperando alguém que aprecie a sua “suavidade”. Tomara que o meu pai não apareça aqui, por esses dias. O pai é gaúcho buenacho, acostumado a varar coxilhas em lombo de cavalo, tropeando gado. O que ele não ia dizer se visse uma coisa dessas. Logo o velho, que sempre me contava o caso de quando ele, por falta de coisa melhor, teve de limpar com pé de urtiga. E não achou ruim.
Se ele visse aquela coisa no banheiro, era capaz de chorar de desgosto. Não foi pra isso que ele me deu educação.

Eu, em todo caso, não vou usar a novidade. O papel está lá no banheiro. Quem quiser que use. Mas, ali do lado, em cima do banquinho de lavar os pés, eu deixei o Correio. Daqueles de domingo, pra durar a semana inteira. Ele fica ali, pra ser usado por quem é homem e ainda não perdeu a vergonha na cara.

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