Os primeiros imigrantes alemães que vieram para o estado não eram acostumados a andar a cavalo, algo muito comum para os gaúchos Reprodução/Internet

Para os riograndenses do século XIX, andar a cavalo era uma necessidade. Todos sabiam montar e sentiam grande orgulho quando possuíam um belo animal. Euclides da Cunha, em Os Sertões, comenta este aspecto da nossa cultura antiga:

“O cavalo, sócio inseparável dessa existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado, está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.”

A importância que davam os gaúchos antigos à apresentação de seus cavalos (que faz lembrar o interesse que temos atualmente por nossos automóveis) constituiu-se numa grande vantagem para os colonos alemães imigrados para São Leopoldo. Em meados do século XIX desenvolveu-se ali, grandemente, a indústria de lombilhos (selas para cavalos). Colonos que trouxeram da terra mãe o conhecimento de técnicas sofisticadas, sabiam produzir arreamentos de grande qualidade e sofisticação, lavrando-os artisticamente.

Na Alemanha a posse de um cavalo era privilégio de poucos. E os pobres colonos imigrados, na maioria, nunca haviam montado um desses animais. A sua inabilidade como cavaleiros parecia ridícula aos gaúchos, para os quais nada parecia mais engraçado do que ver um alemão desajeitadamente montado num cavalo. Afirma Leopoldo Petry, no seu livro Novo Hamburgo, que havia nos campos da Estância Velha, antes da revolução de 1835, muitos cavalos pertencentes ao governo. E os colonos tinham permissão para servir-se deles. Como, porém, faltava prática em lidar com esses animais, quase todos xucros, só depois de alguns anos os imigrantes souberam aproveitá-los.

Naquela época, por outro lado, as distâncias eram muito grandes e os meios de transporte precaríssimos. Por isso não era nada raro os colonos terem de viajar a pé, por grandes distâncias.

Nicolau Freiberger, um dos primeiros colonizadores do Vale Real, costumava caminhar até São Leopoldo, levando nas costas meio saco de feijão, para trocá-lo por um saquinho de sal.

Conta-se que, certa vez, um colono alemão, tendo de fazer uma viagem como esta, pediu emprestado o cavalo do seu vizinho. O colono não sabia montar direito. Mas, como o dono lhe garantia que o animal era muito manso, resolveu arriscar.

– Você só tem de cuidar de uma coisa – advertiu o vizinho. – Ele é muito coiceiro.
Em meio à viagem, passou o colono por um bodega na qual o dono do cavalo tinha o hábito de chegar para tomar um trago e bater um papo. O cavalo, acostumado, empacou defronte ao armazém, recusando-se a seguir caminho, por mais que o colono lhe fincasse as esporas.

O dono do armzém, assistindo à cena e compreendendo o que acontecia, apanhou uma pedra e jogou-a com a intenção de atingir as ancas do cavalo e, assustando-o, fazê-lo seguir. A pedra, entretanto, foi bater nas costas do colono.

Este, depois de um gemido e de algumas imprecações, falou para o cavalo:
– Ah, desgraçado. Bem que o teu dono me avisou que tu era coiceiro.

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