Em 1845, a Lei Aberdeen autorizou a frota inglesa a apreender as embarcações negreiras que se destinavam ao Brasil Reprodução/Internet

No século XIX ocorreu um forte movimento mundial com o objetivo de acabar com a escravidão, que maculava a civilização cristã ocidental. Aos poucos, foram sendo alcançados alguns progressos. Em 1807, a Inglaterra proibiu o tráfico de escravos para as suas colônias. Em 1845, a Lei Aberdeen autorizou a frota inglesa a apreender as embarcações negreiras que se destinavam ao Brasil.

Por aqui, os intelectuais faziam, desde cedo, a propaganda abolicionista. Em 1849, o escritor Caldre Fião (que depois radicou-se em São Leopoldo) fundou no Rio de Janeiro um semanário abolicionista que passou a ser o porta-voz da Sociedade Contra o Tráfico de Africanos, Protetora da Colonização e da Civilização dos Indígenas.

Vê-se por aí como a imigração de colonos alemães teve, entre as causas que a motivaram, a necessidade de encontrar alternativas para o trabalho escravo. O colono germânico vinha para cá substituir o negro africano, cuja “importação” ia se tornando cada vez mais difícil. Tanto isso é verdade, que as leis da, então, Província de São Pedro do Rio Grande do Sul proibiam a posse de escravos pelos colonos.

Anos antes da libertação dos escravos, através da Lei Áurea (1888), algumas cidades, como São Leopoldo e São Sebastião do Caí, já haviam conseguido, por meio de campanhas populares, libertar todos os seus escravos. Era motivo de orgulho para a cidade, naquela época, poder afirmar que não havia nela mais nenhum escravo, que nela todos homens eram tão iguais e livres.

São Leopoldo custou a atingir este status porque, apesar de todos os esforços feitos, restava ainda um escravo na cidade, chamado Fortunato. Seu dono não se dispunha a libertá-lo (alforriá-lo). Mobilizaram-se, então, os sócios da Sociedade Ginástica e realizaram um espetáculo no circo Querino, que encontrava-se na cidade, destinando-se a sua renda à compra da liberdade de Fortunato.

O proprietário deste último escravo leopoldense, segundo pesquisas realizadas pelo historiador Germano Moehlecke, foi um descendente de alemães chamado Nicolau Stumpf.
É um pouco estranho que, sendo proibido aos imigrantes comprar escravos, um homem como esse Stumpf fosse o dono de Fortunato. Talvez o fato se explique pelo fato desse colono haver nascido no Brasil e ser, portanto, um cidadão brasileiro com os mesmos direitos de qualquer outro. Ou então pelo fato de que já naquela época as leis não eram muito obedecidas neste país.

O certo é que a presença de escravos nas propriedades de colonos alemães, embora tenha ocorrido, foi muito rara. E isso foi muito bom. Na opinião de historiadores, como Joseph Hörmeyer, a escravidão traz muitos males consigo. Onde há escravos, obrigados a trabalhar, os livres se esquivam do trabalho, a fim de não serem tidos como escravos.
São poucos os casos referentes à presença de negros entre os colonos, mas há o seguinte:
Conta-se que, lá pelo início do século XX, um negro foi criado por uma família de colonos e aprendeu a falar apenas a língua alemã. Quando rapaz, ele convivia com os jovens de origem alemã num razoável grau de integração. Era bastante respeitado, até porque era um moço muito forte.

Acontece que havia conflito, então, entre os jovens de ascendência germânica e os descendentes de portugueses. Nos bailes, ou mesmo na rua, não era raro ocorrer brigas entre as duas “facções”. E os alemães contavam com o seu robusto amigo negro como um importante trunfo nas batalhas. Conta-se que ele, muito compenetrado do seu papel, costumava proclamar o lema do grupo: Mea deltche buwe misse camma halle (Nós, os jovens alemães, precisamos ficar unidos).

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