Monteiro Lobato escreveu que a superstição é filha do medo e da escuridão. Considerava que o progresso, levando a iluminação elétrica a uma maior parcela da população, faria desaparecer a superstição, juntamente com as trevas. Há muito de verdade nesta tese.
Antigamente, o povo do interior vivia envolto por trevas e superstições. Quem tinha de andar sozinho à noite, por estradas escuras, temia encontrar o Boi Tatá, um lobisomem ou a Mula sem Cabeça. Nas encruzilhadas, os viajantes temiam por assombrações. Nos locais em que uma cruz à beira da estrada indicava o ponto em que ocorrera a morte de uma pessoa, passavam com um nó na garganta, temendo pela aparição de uma alma do outro mundo.

Conta-se que, certa vez, dois caminhantes, passando a noite nas proximidades de um cemitério, ouviram uma voz que, lá de dentro, por trás do muro, repetia:

– Essa é minha, essa e tua; essa é minha, essa é tua; essa…

De quando em vez, uma outra voz era ouvida, dizendo coisas como:
– Epa, essa eu não quero fica pra ti e me dê aquela ali.

Na verdade, eram dois ladrões que repartiam entre si as laranjas que haviam roubado num pomar da vizinhança.

Mas os caminhantes, que da estrada ouviram aquelas vozes, faziam uma interpretação diferente do seu significado.

– É Deus e o Diabo repartindo as almas do cemitério – concluíram eles, aterrorizados.

E trataram de correr, a toda velocidade, para bem longe daquele local macabro.

Na primeira casa com luz acesa, chegaram-se para descansar da corrida e buscando a sensação de segurança que lhes dava a companhia humana. À frente da casa, à luz do lampião, um sapateiro conversava com alguns amigos.

Os dois forasteiros contaram o que haviam escutado ao passar pelo cemitério e todos ficaram assustados.

– Será que está chegando o fim do mundo? – um deles perguntou.
– Virgem Santa Nossa Senhora! – exclamou outro.

Só quem não acreditou na história, foi o sapateiro.
– Isso aí é conversa fiada. Me admiro de vocês, acreditando numa história dessas – disse ele. E completou com uma estranha expressão que se usava naquela época:
– Não aperta, Aparício.

Um dos forasteiros indignou-se com o fato da sua palavra haver sido colocada em dúvida.
– Tu achas, então, que eu estou mentindo?
– Não se ofenda – respondeu o sapateiro. – Mas numa história dessas, eu só acredito vendo.
– Então vamos até lá – propôs o forasteiro, cheio de brios.
– Eu sou aleijado – disse o sapateiro. – Mas se vocês me carregarem, eu vou.
– Então vamos – disse o caminhante ainda indignado pelo descrédito quanto à sua palavra.
O outro não quis saber:
– Vão vocês, se quiserem. Eu não volto lá nem amarrado.

E foram. Tendo o caminhante de carregar o sapateiro incrédulo.

Quando chegaram, os dois ladrões estavam mesmo terminando de contar as laranjas. Enquanto os dois, lá fora, aguçavam os ouvidos para ouvir as palavras que vinham de dentro do cemitério, um dos ladrões lembrou de duas laranjas que haviam rolado para a estrada por um buraco existente no muro.

– Olha – falou o ladrão para o seu comparsa – aquelas duas que estão lá fora, tu pode ficar pra ti.

Ouvindo isso, o caminhante e o sapateiro puseram-se a correr feito loucos em direção à vila. E as pessoas que assistiram o caso juram, de pés juntos, que o sapateiro chegou na frente.

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