Francisco um homem mulato, filho de Bernardo Mateus e de uma escrava chamada Joaquina, teve a honra - e a generosidade - de doar à Igreja, em 1864, o terreno no qual se ergue hoje a igreja matriz de São Sebastião, no centro do Caí. Reprodução/FN

Quando morreu a mulher de Bernardo, em 1818, ele fez um inventário dos bens do casal. E outro inventário foi feito em 1836, depois da morte do próprio Bernardo. Por eles se vê que, ao longo destes 18 anos, houve um sensível aumento nos bens do primeiro caiense.
Em 1818 ele possuía, além da área de terras, uma casa coberta de palha, uma engenhoca de moer cana instalada num rancho (usada para fabricar cachaça), oito pés de laranjeira, um escravo de nome José que havia fugido há cinco anos sem que se soubesse se estava vivo ou morto, outro escravo também de nome José e uma escrava de nome Joaquina, com dois filhos menores: Justino, nascido em 1815, e Cesário, nascido em 1818. Este último foi avô do caiense Carulo, nascido em 1910, que foi muito conhecido na cidade como comerciante de ferro velho.

Ao morrer, 18 anos após, ele possuía uma casa de pau a pique coberta por telhas com 60 palmos de frente (13,2 metros) por 30 palmos da frente aos fundos ( 6,6 metros). Sua casa tinha, portanto, 87 metros quadrados e consta que ficava próxima ao local onde hoje está situado o Hospital Sagrada Família. A propriedade tinha outra casa, menor, para a moradia dos escravos e ainda a casa dos engenhos, maior que a da moradia de Bernardo, na qual estavam instalados os engenhos de moer cana e outro de fazer farinha de mandioca. E havia ainda, neste mesmo prédio, um alambique de cobre e vários barris com aguardente. O proprietário possuía, portanto, uma atafona (para produzir farinha de mandioca) e um alambique (para produzir cachaça). Pode se imaginar que com o dinheiro da venda de metade das suas terras ele conseguiu fazer tais investimentos, tornando-se um pequeno industrial. Ruben Neis supõe que, com o aumento populacional na região causado pela vinda dos colonos alemães para São José do Hortêncio, havia um mercado consumidor nas proximidades que justificava o investimento nestas pequenas indústrias. Nota-se pelo inventário, que Bernardo possuía também um forno de coser telha. Ou seja, ele possuía também uma pequena e rudimentar olaria.

Os prejuízos da revolução
Os negócios iniciados por Bernardo Mateus não foram muito adiante porque em 1835 começou a Revolução Farroupilha, que causou enorme desordem na estrutura social e econômica da província. A morte de Bernardo, em 1836, também contribuiu para isto.
No seu testamento, Bernardo deixou 150 mil réis para a Santa Casa de Misericórdia, de Porto Alegre. Declarou libertos a escrava Joaquina e seus filhos, contemplou com alguns bens a negra Joaquina e seus filhos e nomeou como seu herdeiro universal o filho dela (e dele) chamado Francisco, que já era liberto desde o nascimento.

Joaquina e seus filhos ainda muito jovens não tiveram condições de levar adiante as atividades empresariais iniciadas por Bernardo. Ainda mais que tiveram de enfrentar as grandes adversidades advindas da guerra farroupilha. Segundo o inventariante José Inácio Mineiro, saques promovidos pelos guerrilheiros farroupilhas causaram grandes danos e perdas à propriedade e também as forças governamentais se apropriaram de bens, especialmente cavalos, da propriedade.

Em fevereiro de 1843 os dois escravos que não foram alforriados, Catarina e Antônio, foram vendidos em leilão, na cidade de Porto Alegre. Catarina foi vendida por 257 mil réis. Antônio, que era aleijado, não teve pretendentes e conseguiu comprar a sua liberdade pagando 101 mil réis.

Quanto a Francisco Mateus, o herdeiro das terras de Bernardo, consta que ele andou desaparecido durante a Revolução Farroupilha. Francisco nasceu em 1826 e tinha, portanto, nove anos quando começou a revolução e 19 quando ela terminou, em 1845. Mesmo assim, segundo informou o fazendeiro Antônio José da Silva Guimarães, vizinho de Bernardo Mateus, “foi agarrado pela gente de Bento Manoel e se retirou do sítio e lugar da sua vivenda e até hoje não há notícias dele senão mui vagas, que andava nas forças rebeldes.”

Francisco voltou depois do término da revolução e tomou posse das terras herdadas de seu pai. E deve ter permanecido no Caí, e na posse das terras, pois em 1864 ele aparece como sendo o doador do terreno no qual foi construída a igreja católica da cidade.

Assim, foi este homem mulato, filho de uma escrava, que teve a honra – e a generosidade – de doar à Igreja o terreno no qual se ergue hoje a igreja matriz de São Sebastião, no centro do Caí.

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