Superdotado: Com 13 para 14 anos escreveu, a lápis, um livro intitulado História Antiga e Medieval, com 672 páginas Divulgação/Internet

Todos os professores, no seminário de Pareci Novo, eram padres e irmãos vindos da Europa, como o alemão Tiago Lörken e o suíço João Brugmann.

O jovem Balduíno sentia-se alemão (como era normal na região colonial àquela época). Tanto que, em 27 de outubro de 1917, quando o Brasil entrou em guerra contra a Alemanha, isto lhe causou forte indignação. Ele escreveu, então, para o seu tio Pedro Vier, que vivia no Seminário Leopoldense uma carta cheia de arroubos como este: “Que quer o estúpido Brasil contra a forte Alemanha? Ó Alemanha, defende-te contra 1.400.000.000 de inimigos.” Os padres faziam um esforço de desgermanização dos seus alunos e o tio Pedro censurou o sobrinho pela forma ofensiva com que se referira na carta ao Brasil. No ano seguinte, tendo o padre Bruggmann perguntado a Balduíno se ele era alemão ou brasileiro, este não respondeu, para não ter de manifestar a revolta que sentia quanto àquela obrigação de negar que o seu verdadeiro sentimento patriótico era voltado para a Alemanha.

Noutra ocasião, num grupo de seminaristas, um deles disse: “Se tivesse 50 mil réis, haveria de presenteá-lo ao Kaiser”. O padre João B. Droste, que era o prefeito de disciplina, soube disto e repreendeu o grupo nas seguintes palavras: “Que desatino o de vocês! Vocês não são nem sequer alemães, vocês são brasileiros! O que é, aliás, que vocês ainda possuem de germanidade? Um dialeto confuso, nada mais!” As palavras do padre (que era alemão, naturalmente) feriram profundamente o jovem Balduíno. “Mais uma vez”, comentou ele muitos anos depois, “estava eu diante do enigma de que subitamente não mais fosse aquilo que sempre fora.” Ele se sentia alemão.

Em fevereiro de 1919, Balduíno Rambo passou a estudar no Seminário Menor de São Leopoldo, onde ficaria por quatro anos. Ele era extremamente inteligente e esforçado, tirando quase que apenas notas dez (eventualmente um nove). Com 13 para 14 anos escreveu, a lápis, um livro intitulado História Antiga e Medieval, com 672 páginas. Um resumo de diversos livros que havia lido. História e Geografia eram suas matérias preferidas neste período da sua vida. O padre João Batista Réus foi seu professor de História Universal em 1921.

Em 19 de outubro de 1922 Balduíno prestou exames e, aprovado, foi admitido na Companhia de Jesus, tornando-se um jesuíta. Em fevereiro de 1923 Balduíno voltou a estudar no Pareci Novo, onde fez o noviciado. Com isto tornou-se um irmão jesuíta. Depois, no mesmo local (Colégio São José) fez mais dois anos de juniorado.

Um grande brasileiro

Singularmente, para este homem que foi um dos precursores do ambientalismo, ele gostava de caçar. Num dia das suas férias em Tupandi, conforme ele mesmo registrou no seu diário, matou um mico, um bugio, três coatis, 13 jararacas, pombas etc. E ainda um gato do vizinho que o incomodava à noite.
Balduíno procurou aproveitar bem as suas últimas férias, pois ao tornar-se noviço da Companhia de Jesus, teria de ficar 15 anos separado da sua família e amigos. Balduíno sempre escreveu para os pais e o fazia em alemão, única língua que eles dominavam. Durante a Segunda Guerra, quando foi proibido o uso da língua alemã, ele escreveu em português. O que lhe causou revolta, pois seus pais precisavam de um tradutor para ler as cartas.

Concluídos os seus estudos no Pareci, o noviço foi destinado a Florianópolis, onde tornou-se professor de Aritmética, Francês e Desenho no Ginásio Catarinense. Depois de lecionar em Santa Catarina nos anos de 1927 e 28, Balduíno Rambo partiu para a Alemanha, para lá continuar os seus estudos. De 1928 a 31, ele estudou em Pullach, localidade próxima a Munique, no Colégio São João Berchmans, especializado em Filosofia e Teologia. Por isto, talvez, suas notas naquele colégio não foram boas como as que obtinha sempre nos colégios brasileiros. Aparentemente, ele estudava Filosofia e Teologia apenas o suficiente para ser aprovado, enquanto entregava-se com maior afinco a estudos paralelos de ciências. Na Alemanha, Balduíno aprofundou seus estudos sobre Ciências Naturais que permitiram a ele tornar-se, quando retornou ao Rio Grande do Sul, o maior cientista desta área no estado.

Retornando ao Brasil, tornou-se professor no Colégio Anchieta, de Porto Alegre. Entre os anos de 1934 a 37 foi mandado para estudar Teologia no Seminário de São Leopoldo. O que o deixou bastante frustrado, pois ele preferia fazer estes estudos na Alemanha, onde poderia ampliar sua formação científica. Balduíno pediu aos superiores para continuar seus estudos na Alemanha, alegando que aqui não haviam museus, laboratórios, companheiros dedicados aos mesmos estudos para trocar idéias. Faltava, em fim, um clima científico. Em carta ao Superior Supremo dos Jesuítas, em Roma, chegou a argumentar que nos três anos que estudou na Alemanha aprendeu “o idioma alemão, minha língua materna, melhor que o lusitano, e de coração eu sou teuto e não brasileiro.” Mas seu pedido não foi atendido e o mundo, provavelmente, perdeu com isto um grande cientista. Mas, mesmo frustrado, Balduíno soube contribuir para a comunidade rio-grandense e fazer com que os 30 anos que ainda teve de vida entre nós fossem de grande utilidade para o progresso do estado. E ele foi um grande brasileiro.

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