A incrível história do sequestro de uma família inteira de colonos por índios caingangues Reprodução/Internet

No município de São Vendelino, ocorreu uma das histórias mais marcantes da época de colonização alemã, que foi o rapto de toda a família do colono Lamberto Versteg por índios caingangues. Os selvagens saquearam a propriedade do colono e sequestraram sua esposa e o casal de filhos. A mulher e a filha foram mortas pelos índios e o filho, chamado Jacó, sobreviveu, conseguindo fugir e voltar à civilização branca, depois de haver permanecido por cerca de nove anos entre eles. O próprio Jacó Versteg, quando já era idoso, contou sua história ao monsenhor Matias José Gansweidt, que escreveu um livro baseado no seu relato e no de outras pessoas que participaram desta história. O livro, bastante conhecido, chama-se As Vítimas do Bugre e conta em detalhes a história que aqui apresentaremos de forma resumida.

Lamberto Versteg estava vivendo com a sua família na Colônia de Santa Maria da Soledade já há dez anos quando aconteceu o rapto de seus familiares. E os índios que cometeram o crime teriam agido por orientação de Luís Bugre, um índio que falava alemão e vivia no meio dos colonos. Luís havia sido separado da sua tribo e adotado por uma família branca, aos 11 anos de idade. A palavra bugre que os colonos usavam para identificá-lo era a forma como os índios eram tratados naquela época.

Foi no ano de 1847, na recém implantada colônia de Feliz. Cansados de serem incomodados pelos bugres (que lhes devastavam as plantações e roubavam-lhes o gado nos potreiros) os colonos se reuniram para organizar uma defesa coletiva. Os colonos João Barth, Jacó Bohn, João Berwanger, Miguel Nedel, Matias Flach, João Hentz, Pedro Hirschberger, André Scherer e Antônio Zirbes combinaram de ter sempre, em casa, uma espingarda com cartuchos carregados de sal ou de chumbinho, para dar uma recepção inesquecível aos bugres que roubavam suas criações e lavouras. As espingardas ficavam sempre prontas, do lado da cama do chefe da família, pois os índios costumavam atacar à noite. E também combinaram que, havendo o ataque a uma propriedade, os vizinhos deveriam se unir para a defesa do colono atacado.

O colono Jacó Bohn preparou um sistema de alarme bem rudimentar, mas eficiente. Uma corda foi esticada na borda da sua plantação de milho, ficando a ponta da mesma amarrada a uma lata vazia deixada sobre uma caixa, dentro da sua casa. Numa noite aparentemente tranquila, a lata caiu de cima da caixa, acordando o colono. Dois dos seus filhos correram a avisar os vizinhos mais próximos e estes avisaram outros vizinhos, de modo que em 45 minutos já havia um grupo de colonos reunido na casa de Jacó. Todos armados com suas espingardas, os colonos cercaram a roça de milho, dentro da qual os bugres faziam a sua rapina. A um sinal, os colonos começaram a disparar suas espingardas e seus cachorros também atacaram os selvagens que foram tomados de um pânico extremo. Em fuga desesperada, os bugres correram em direção ao rio Caí e se jogaram nas suas águas, desaparecendo rapidamente.

Luis Bugre
Mas um dos bugres não conseguiu fugir. Ele foi atingido por uma carga de chumbo no joelho e, na fuga, destroncou o pé. Era um menino de onze anos e um dos colonos, o luso Matias Rodrigues da Fonseca, resolveu levá-lo para sua casa, para servir de empregado. O garoto, que passou a chamar-se Luís Antônio, cresceu na convivência com os colonos e aprendeu até a falar (mal) o alemão, língua predominante na colônia. Recebeu a educação religiosa que era dada aos filhos de todos os colonos e, em 1849, foi batizado pelo padre João Sedlack, da recém constituída paróquia de São José do Hortêncio. Os padres de Hortêncio, naquela época, prestavam assistência aos colonos católicos do Vale do Caí. Eles eram alemães e tinham, portanto, facilidade de se comunicar com os colonos. Antes da vinda destes padres, os colonos católicos da região estavam mal assistidos religiosamente, pois os padres brasileiros só sabiam falar o português.

Mas Luís Antônio nunca assimilou totalmente a cultura dos brancos. Ele costumava se embrenhar na mata, onde ficava por dias, semanas ou até meses, voltando depois para a casa do “pai” Matias, trazendo peles de animais caçados por ele.

Certa vez Luís voltou trazendo uma companheira. E assim Luís Bugre, como o chamavam, passou a morar na colônia de Feliz, junto com um colono alemão chamado João Welchen que tornou-se seu companheiro de caçadas. Antônio praticava uma forma de comércio bastante comum na época, intermediando as trocas entre brancos e índios. Os seus companheiros de raça forneciam mel silvestre, peles de animais e papagaios vivos, recebendo em troca algumas “maravilhas da civilização”, como pedaços de espelho, facas de metal, açúcar e sal.

Mais tarde Luís se estabeleceu numa encosta de difícil acesso no Morro da Canastra, ao norte da atual cidade de São Vendelino. Lá ficavam sua mulher e dois filhinhos, enquanto Luís andava pela colônia e pelas matas da Serra, fazendo contato com colonos e índios. Gostava de tomar cachaça, que ganhava dos comerciantes em troca da facilitação dos negócios que estes também faziam com os bugres que ainda perambulavam pelas matas do Vale do Caí. Quando bêbado, Luís tornava-se brigão e insolente. E não suportava que o chamassem de bugre. Perambulando pela colônia, sempre acompanhado de uma “escolta” de cachorros brabos, Luís passou a inspirar medo e preocupação entre os colonos.

Aconteceu, então, o episódio narrado no livro do monsenhor Matias Gansweidt.

Vivia na Colônia de Santa Maria da Soledade uma família que havia imigrado da Alemanha em 1858: o casal Lamberto e Valfrida Versteg e seus dois filhos: Jacó e Maria Lucila. Lamberto era de uma família nobre, descendente, por parte de mãe, dos condes von Ameringen. A sua família havia empobrecido e perdido a condição de nobreza, mas ele ainda guardava algo do ar altivo herdado dos antepassados.

Lamberto se estabelece na colônia

Quando Lamberto, recém imigrado, chegou a São Leopoldo, foi convencido por um agente a comprar terras na Colônia de Santa Maria da Soledade. As terras mais próximas já haviam sido vendidas e ele acabou adquirindo as suas na localidade conhecida hoje como Santo Antônio do Forromeco, situada ao norte da atual sede do município de São Vendelino, na confluência do arroio Forromeco com o seu afluente Arroio Santa Luiza. Lá as terras eram baratas, mas pouco povoadas. Os vizinhos eram poucos e moravam a uma boa distância uns dos outros.

Ali Lamberto, Valfrida e os filhos viveram sossegados por dez anos. Aos poucos iam melhorando de vida, graças ao trabalho árduo de toda a família. Seguindo o costume dos colonos alemães, até os filhos pequenos ajudavam nos trabalhos da casa e da lavoura. A colônia também se desenvolvia, a povoação pelos homens brancos aumentava, mas a preocupação com a ameaça dos bugres não havia desaparecido.

Em 1857 os selvagens haviam atacado a propriedade de Nicolau Rempel, na picada Feliz. Ele trabalhava na lavoura, quando viu os nativos se aproximarem. Correu para a sua casa, onde pretendia apanhar a sua espingarda. Enquanto corria gritava para a mulher e os filhos, dizendo para eles se esconderem no mato. Nicolau não conseguiu chegar até a sua rústica morada. Antes disto foi atingido por uma flecha e morreu.

O governo havia destacado um grupo de 30 homens que, sob o comando de Jacó Fetter, conseguiram manter os bugres à distância. Mas havia uma generalizada desconfiança com relação Luis Bugre e o temor de que ele atacasse as propriedades dos colonos juntamente com seus companheiros de raça.

Mesmo assim, em janeiro de 1868, Lamberto Verstag decidiu aceitar o convite de um velho amigo e ir visitá-lo no povoado do Caí (povoação que já havia se formado naquela época, junto ao Rio Caí, nas localidades conhecidas hoje por Bela Vista e Caí Velho, pertencentes ao município de Bom Princípio).

Valfrida ficou em casa, com os filhos Jacó, de 14 anos, e Maria Lucila, dois anos mais nova. A primeira noite passada sozinha foi de certa apreensão para Valfrida. Com o clarear do dia ela se sente mais segura. Cuida do trabalho na propriedade até que, num dado momento, chega à casa um homem de pele escura e rodeado de cães. Valfrida, mesmo sem conhecê-lo, suspeita logo que se trata do temido Luis Bugre. O homem se apresenta e fala com a mulher amavelmente, tratando de tranquilizá-la quanto às suas intenções. E, de fato, logo Luis se despede e parte pacificamente. Valfrida prossegue no seu trabalho, apesar do temor por saber que o mal afamado bugre andava por perto. Decide ir, com os filhos, para a casa de um vizinho e lá permanecer até a volta do marido. Mas antes dela poder executar o seu plano, a família sofre o ataque dos bugres.

….Continua: As vítimas do Bugre: O sequestro  

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