Nove anos após ser sequestrado junto com sua família pelos índios, Jacó Versteg apareceu de volta à civilização e narrou a história para o monsenhor Matias Gansweidt, que, posteriormente, escreveu o livro As Vítimas do Bugre Reprodução/Internet
  • Para melhor compreensão do texto abaixo, é importante que leia a primeira parte do texto: As vítimas do Bugre

Primeiro Valfrida ouviu o barulho dos quero-queros, dando o alarme. Os galos também deram o sinal. Então o cão fiel saltou de dentro de casa para o terreiro e correu, latindo furioso, em direção ao mato. Valfrida já se preocupa com estes sinais dados pelos animais, e logo vem a confirmação dos seus maus pressentimentos: uma flecha entra pela janela aberta, transpassa a casa e vai cravar-se na parede oposta, tremulante. A mãe deita no chão da casa, arrastando com ela os dois filhos. Os três se dirigem para o quarto de dormir, onde se encontra a espingarda carregada. Ela entreabre a janela e dispara um tiro na direção do mato, esperando assim espantar os bugres. Mas não é este o efeito alcançado. Os latidos furiosos do cão cessam pouco depois. Plutão, o fiel amigo da família, é atingido por uma flecha. Os bugres permanecem no mato, a espreita. O disparo da arma não os fez fugir. Eles estavam bem informados. Sabiam que ali se encontrava apenas uma senhora e seus dois filhos indefesos. Mais uma flecha penetra na casa, pela janela. Valfrida segura a espingarda de dois canos, pronta a atirar no primeiro bugre que se atrever a mostrar sua cara na janela da casa. Mas o ataque não ocorre logo. Pelo contrário, volta o silêncio e a tranqüilidade normais do lugar. Os animais voltam a emitir os sons da normalidade. Pássaros cantam na mata. A galinha choca volta a passear pelo terreiro, com seus filhinhos. Valfrida espia pela janela, pensando que os bugres haviam fugido. Mas, então, eles surgem. De todo lado, eles irrompem da mata, avançando sobre a casa aos gritos. A porta externa da casa é arrancada por violentos golpes e logo a Valfrida se vê cercada por selvagens semi-nus. Um deles lhe arranca a espingarda das mãos. Os invasores logo começam uma destruição estúpida de tudo que se encontra dentro da casa. Móveis, louças, panelas. No pátio, abatem os animais: cavalos, vacas, porcos. Destroem tudo. Voltam à casa e reviram a casa até encontrar os dois filhos que haviam se escondido debaixo da cama. E os rostos dos selvagens dão sinais de que era isto – as crianças – que eles procuravam. Os bugres agarram Jacó e Maria que gritam pela mãe, pedindo socorro. Ela corre para eles, mas recebe um murro violento desferido por um dos invasores, que a faz cair num canto da casa, sem sentidos. Quando volta a si, ela e os dois filhos estão com os pés e mãos amarrados. São prisioneiros dos índios que ainda vasculham a casa. Encontram um estojo com jóias, que o cacique pendura no próprio pescoço.

Os assaltantes preparam depois a retirada. Carregam o que podem. As facas da casa despertam especial interesse. Galinhas, porcos e vacas são mortos e esquartejados. Os selvagens atam com cordas grandes pedaços de carne, dois a dois, para carregá-los às costas. O que não podem carregar, destroem. E, para completar, acabam ateando fogo à casa de madeira. Em minutos, é destruído tudo que a família conseguiu erguer em dez anos de trabalho incansável. Valfrida e as duas crianças são levadas pelos índios, prisioneiros.

Quando Lamberto volta do Caí, se depara com a cena tenebrosa. Chocado pela ruína que encontra no lugar do seu lar e pressentindo a desgraça que se abatera sobre os seus, ele desaba. Desmaiado, tomba do seu cavalo. Voltando a si do desmaio e do desvairio inicial, Lamberto faz um levantamento da destruição e vê, pelo chão, as pegadas de muitos pés descalços. Ele, então, grita chamando pela mulher e os filhos, na esperança de que eles tenham conseguido fugir, escondendo-se no mato. Mas não ouve resposta alguma. Lamberto percorre a mata ao redor da casa procurando pela família e nada. Vai então até a casa dos vizinhos mais próximos, a família de João Boesing, mas também lá seus familiares não estão.

Logo o alarme se espalha por São Vendelino. O povo da colônia fica sabendo rapidamente que os bugres atacaram a morada de Lamberto Versteg e roubaram-lhe a mulher e os filhos. Ao toque do sino da capela, o povo se reúne e se inteira dos fatos.

Buscas infrutíferas e a volta de Jacó

Foi organizado um grupo de voluntários que se prontificou a sair no encalço dos índios assaltantes, na tentativa de resgatar a mulher e as crianças por eles raptadas. A expedição partiu de São Vendelino no dia 15 de janeiro de 1868. Chamou a atenção de todos, no início da jornada, o estado de ânimo de Lamberto Versteg. Cabisbaixo, abatido pela desgraça que caíra sobre sua família, ele não parecia mais o mesmo homem de porte altivo que era antes.

Eram os seguintes os integrantes da pequena tropa:
João Felipe Scheid, Antônio Grossmann, João Beckembach, Nicolau Neis, Jacó Weirich, Henrique Esswein, Antônio Ludwig, Nicolau Lermen, Tomás Postai, João Lotermann, Matias Hendges, Xavier Boeni, Frederico Gossenheimer, Jacó Mueller, Pedro Krein, Simão Backendorf, Matias Nauls, Nicolau Binsfeld, João Ramler, Matias Scherer, Jacó Schmitt, Adão Petry, Matias Rodrigues da Fonseca, Augusto Froem, Lamberto Versteg e João Boesing. Ao todo, 26 homens.

Matias Rodrigues da Fonseca, que sabia falar alemão e tinha o hábito de embrenhar-se na mata fazendo caçadas, foi escolhido pelos membros da expedição para ser o chefe da mesma. Fato que demonstra o quanto ele era respeitado pelos colonos de Santa Maria da Soledade.

Tanto esta quanto outra expedição organizada para resgatar Valfrida, Jacó e Lucila foram mal sucedidas. Era difícil para os colonos enfrentar as agruras da selva e mais difícil ainda confrontar-se com os índios no ambiente que eles conheciam muito melhor. Além disto, a extensão das terras desabitadas que eram percorridas pelos índios na sua existência nômade tornava quase impossível a sua localização. Na segunda expedição de busca, patrocinada pelo governo, Luis Bugre ofereceu-se para participar e foi aceito devido aos seus conhecimentos da floresta e da tribo dos índios raptores. Mas tudo indica que ele procurou, ardilosamente, impedir o sucesso dos expedicionários.

Passaram-se os anos e os colonos nada souberam quanto ao destino da mãe e seus filhos. Nove anos mais tarde, Jacó Versteg apareceu de volta à civilização. Ele havia vivido com a tribo, levando uma vida de selvagem. Até que, já um rapaz adulto, com seus 23 anos, conseguiu fugir. Dirigiu-se para São Leopoldo, onde teve a sorte de encontrar seu pai. Assim Lamberto soube que tanto a esposa como a filha haviam sido mortas pelos índios.

Jacó Versteg narrou sua história pormenorizadamente para o monsenhor Matias Gansweidt, que a narrou no livro As Vítimas do Bugre. Um rico relato sobre as desventuras dos três raptados e sobre as características da floresta e dos seus primitivos habitantes.

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