No refeitório da empresa, passava seções de cinema para os funcionários e a comunidade capelense Arquivo/FN

Embora tenha sido o primeiro núcleo de colonização do Vale do Caí, até a década de 40 do século passado, Capela de Santana era uma localidade apenas rural, com pequena população. Não muito diferente do município do Caí, ao qual pertencia na época. Em todo o município haviam poucas indústrias e todas muito pequenas.

Na época a estrada de ferro passava por Capela, mas isto não chegou a propiciar um grande impacto no seu desenvolvimento. As atividades econômicas predominantes eram a agricultura e a criação de gado praticadas de forma um tanto arcaica, com baixa produtividade.

Estação Azevedo, que hoje é um bairro da cidade de Capela de Santana, ganhou este nome devido à estação – parada – da ferrovia. Ela ficava no local onde se encontrava a fábrica de calçados Dilly. Foi perto desta estação ferroviária que surgiu – já na década de 1930 – uma fabrica de cordas de sisal chamada Cordoaria e Sisal Ltda. A empresa pertencia à família Feijó, de Porto Alegre, e chegou a dar emprego a 17 funcionários. O que, para aquela época, não era pouca coisa. No município de São Sebastião do Cai (que então ainda incluía Capela, Portão, São José do Hortêncio, Feliz e Nova Petrópolis) eram muito poucas as empresas com número maior de empregados.

Aconteceu, então, um fato extraordinário, que veio provocar um grande aumento na população de Capela e explica o porquê do atual município ser o quarto mais populoso do Vale do Caí.

A pequena fábrica de cordas foi adquirida por Victor Adalberto Kessler (um grande empresário de Porto Alegre dedicado à produção e comercialização de arroz com a marca Índio e proprietário do City Hotel) e passou a ser administrada por seus dois filhos Hugo e Fernando. Eles eram ainda rapazes, mas se mostraram muito competentes. A aquisição da fábrica pela família Kessler ocorreu no ano de 1941. Época em que acontecia a Segunda Guerra Mundial. O que, se de um lado representava problemas para o desenvolvimento da empresa, também oferecia oportunidades. As importações estavam impossibilitadas devido ao perigo de navegar pelos oceanos infestados de submarinos alemães.

Apogeu e a queda

Graças ao espírito dinâmico de Hugo e Fernando Kessler, a empresa foi se organizando e desenvolvendo. Logo que assumiram a empresa começaram a demonstrar um dinamismo que causou admiração e surpresa entre a população da pacata vila de Capela de Santana.

Sua primeira iniciativa foi construir dois pontilhões na estradinha que ligava a fábrica à estação da estrada de ferro. Mas foi só depois da Guerra, em 1947 que a fábrica começou a tomar maior impulso. O nome da empresa mudou para Arrozeira Brasileira SA e passou a ter como sócios membros das famílias Maroco e Previ (esta, da Argentina). Foram adquiridos equipamentos modernos, da Inglaterra. E técnicos foram chamados à Capela para fazer a instalação dos mesmos e a implantação de novos processos de produção. Um técnico japonês, vindo de São Paulo, orientou a instalação das novas máquinas e a adoção de novas técnicas.

Uma usina geradora de energia elétrica foi implantada pela própria empresa, usando lenha para movimentar uma caldeira que acionava as turbinas geradoras da energia. Matos de eucalipto foram plantados para fornecer a lenha. Foram adquiridas áreas de terra para a implantação de mais de 200 hectares de plantações de sisal. Uma olaria foi construída para fornecer os tijolos necessários para a construção dos prédios. Os três principais tinha 4.200 metros quadrados cada um.

A Arrozeira produzia cordas, sacos e tapetes utilizando como matérias primas a juta vinda da Amazônia e o sisal plantado na Capela e em Guaíba. Do final da década de 40 até o início da de 1960, a empresa cresceu muito. Já no ano de 1951 empregava de 600 a 700 funcionários. E, no seu apogeu, chegou a ter 1.180 funcionários. Isto fez com que milhares de pessoas migrassem de outros pontos do estado (especialmente do município de Rio Pardo), fazendo crescer significativamente a população local.

Hugo e Fernando Kessler preocupavam-se com a educação, saúde e bem estar dos funcionários. Eles construíram uma escola primária que levou o nome de Victor Adalberto Kessler e proporcionaram excelentes cursos técnicos para o aprimoramento dos seus funcionários. Fernando Kessler viajou para a Alemanha e trouxe de lá a ideia do ensino dual, com aulas normais para as crianças pela manhã e aprendizado técnico na parte da tarde. Jovens e adultos estudavam Mecânica, Marcenaria, Fundição e Eletricidade na escola técnica que foi criada na empresa. Ela era chamada de Escola Industrial Fernando Kessler e dali saíram muitos jovens que depois se tornaram engenheiros ou empresários.

A escola Victor Adalberto Kessler (nome do dono da Arrozeira) permanece em atividade até a atualidade
Arquivo/FN

Às quintas-feiras eram exibidos filmes no salão do refeitório e foi criado um time de futebol da empresa que foi o melhor do município. Passou por lá o caiense Mauro Coelho, logo antes dele ingressar no time do Renner e tornar-se famoso no estado com o apelido de Barrilzinho de Pólvora. O médico e o dentista de maior reputação no Caí naquela época (Bruno Cassel e Arthur Schaeffer) foram contratados para dar assistência aos funcionários.

As informações para esta matéria foram prestadas, basicamente, por Pedro Exemberger, que ingressou na empresa em 1948, com doze anos de idade, frequentou a escola técnica da empresa e trabalhou na mesma por muitos anos, exercendo funções de gerência industrial.

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