Arno Carrard, depois de emancipar Bom Princípio, colaborou para centenas de outras emancipações no estado. Na foto, ele fala em histórica reunião pró emancipação de São José do Hortêncio Arquivo/FN

Continuando a tradição da família, um dos filhos de Armindo Carrard veio a ter importante participação na vida política de Bom Princípio. Na verdade, a mais importante participação, pois foi ele que – com notável empenho e competência – liderou o movimento de emancipação que resultou na criação do município.

Arno Eugênio Carrard nasceu em Bom Princípio, no dia 24 de julho de 1943. Aprendeu a ler e escrever aos três anos de idade. Frequentou o Jardim da Infância no Grupo Escolar Bom Princípio (atual Pio XII). Nos três primeiros anos da escola primária ele foi aluno da Escola Paroquial dirigida pelos Irmãos Maristas. Teve ali mestres com alto nível cultural, na sua maioria vindos da França, mas a disciplina era extremamente severa e, para mantê-la, os irmãos professores não hesitavam em usar a vara e a palmatória. No quarto ano primário Arno passou a estudar no Seminário São João Vianey. Como tantos outros garotos de Bom Princípio, ele chegou a sonhar em ser padre. Mas desistiu da ideia e, no ano seguinte, passou a estudar no Grupo Escolar.

Ingressou depois no Ginásio São Sebastião, no Caí, mas fez ali apenas a primeira série do curso ginasial. Por motivos econômicos, foi transferido para o Ginásio Santiago, onde trabalhava para custear os seus estudos. Mas voltou em seguida a estudar no Ginásio São Sebastião, onde concluiu o curso ginasial. Estudava de manhã e, para chegar na escola na hora certa tinha de levantar-se às cinco horas da madrugada. Arno ia para a escola de ônibus, mas não havia ônibus para o retorno, ao meio-dia. Ele, então, voltava a pé. Muitas vezes conseguia uma carona a partir de certo ponto da caminhada. Mas acontecia também dele fazer todo o percurso caminhando. Foi um líder entre os seus colegas ginasianos, com os quais criou um jornalzinho impresso em mimeógrafo, organizou uma olimpíada estudantil e criou a União Caiense de Estudantes. Na inauguração de uma quadra de vôlei nos fundos do Ginásio, ele fez o seu primeiro discurso. Na presença do prefeito caiense Orestes Lucas.

Fez depois o curso clássico, no colégio estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre e, em 1964, ingressou na faculdade de Direito da PUC, também em Porto Alegre. Formou-se em 1968. Participou de concursos de oratória, foi presidente da Academia de Oratória da URGS e, sendo premiado num concurso, ganhou uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Ele tinha, então, 22 anos e fez estágio de dois meses, na ONU, na OEA e no Centro de Exilados Cubanos.

Uma carreira de sucesso

O fato de Armindo Carrard ter sido um líder tão destacado não fez com que a sua família desfrutasse de situação econômica privilegiada. Para se manter enquanto estudava, seu filho Arno sempre precisou trabalhar. Seu primeiro emprego, quando ele era ainda adolescente, foi como ajudante de pedreiro, na construção da casa canônica de Bom Princípio. Em 1961, quando tinha 18 anos e foi estudar em Porto Alegre, ele passou a trabalhar no antigo Sulbanco. Dois anos depois passou a trabalhar na Superintendência do Desenvolvimento Regional do Sul – SUDESUL – já ocupando a função de Secretário do Conselho Deliberativo. O que o pôs em contato com importantes personalidades políticas. Faziam parte do Conselho os governadores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o Ministro do Interior e representantes de todos os demais ministérios. Depois de formar-se em Direito ele se tornou Procurador Federal.

Paralelamente a estas atividades, Arno Carrard sempre se envolveu com a política. Em 1961, logo que chegou a Porto Alegre para estudar, tornou-se secretário da União Gaúcha de Estudantes Secundários e, ao mesmo tempo, presidia o Conselho da Ala Moça do Partido Libertador. Poucos anos depois, na faculdade de Direito, foi secretário do Centro Acadêmico Maurício Cardoso. Quando, no governo militar, os antigos partidos foram extintos e criada a ARENA como partido de sustentação do governo, Arno tornou-se o primeiro presidente da ARENA Jovem estadual, bem como da Comissão Nacional.

Quando foi extinto o bipartidarismo, participou – juntamente com Sinval Guazelli, Luiz Fernando Cirne Lima, Mário Ramos, Clóvis Stenzel e outros – da criação do Partido Popular, que era liderado nacionalmente por Tancredo Neves. Mais tarde o Partido Popular fundiu-se com o PMDB para viabilizar a candidatura de Tancredo Neves a presidente Arno assumiu a secretaria do PMDB gaúcho que era presidido por Pedro Simon e tinha Sinval Guazelli na vice-presidência. Depois de haver comandado o movimento pela emancipação de Bom Princípio nos anos de 1981 e 1982, ele passou a apoiar outros movimentos emancipacionistas que ocorreram no estado resultando na criação de 260 novos municípios entre os anos de 1982 e 1990. Muitos deles criados com a sua participação decisiva. Considera que estas emancipações foram um dos mais importantes fenômenos político-sociais ocorrido no estado no século XX. Elas contribuíram para o desenvolvimento econômico e social das comunidades do interior e frearam o êxodo rural para as grandes metrópoles.

Aposentado em 1995 como Procurador Federal, Arno Carrard se dedica hoje à advocacia, principalmente na área eleitoral. Casado, em 1970, com Liane Veit, tem quatro filhos, todos atuando na área do Direito. A família reside em Porto Alegre mas passa os fins de semana em Bom Princípio, onde também possui residência.

Apego à terra natal

Mesmo com suas intensas atividades em Porto Alegre, Arno Carrard nunca se desvinculou da sua terra natal. Nos fins de semana ia para a casa dos pais, jogava futebol no Grêmio Esportivo União e nadava no Forromeco e no Caí, onde se destacou por ser um excelente mergulhador. Isto fez com que ele fosse chamado a colaborar na recuperação de corpos de pessoas afogadas. Ele fez isto no caso de duas crianças, filhas de Willibaldo Bartzen, que se afogaram durante uma pescaria na localidade de Canto do Rio. Em outra ocasião recuperou os corpos de dois jovens, filhos de Firmino Burg, desta vez na localidade de Bela Vista.

Noutra ocasião ainda ele ajudou a resgatar, com o uso de uma corrente, um caminhão que havia caído da barca. Este foi mais um episódio trágico que mostra como as travessias do Caí eram perigosas. O barqueiro Helmuth Einzweiller conseguiu salvar o motorista do caminhão num gesto de heroísmo, mas o barqueiro morreu afogado nas águas do rio que tão bem conhecia.

Quando Arno tinha em torno de 25 anos foi solicitado a intervir numa grave questão que afligia centenas de pessoas na comunidade de Bom Princípio. No ano de 1972 a TV Difusora, que era vinculada à Igreja Católica, adquiriu equipamentos e tornou-se a primeira emissora brasileira a transmitir imagens a cores. Para isto vendeu ações e muitos colonos de Bom Princípio – incentivados pelo padre – as adquiriram. Mas o retorno de dividendos não aconteceu. Como muitos colonos deixaram de pagar o que haviam se comprometido, acabaram ameaçados de cobrança judicial. Arno foi chamado a socorrê-los e, numa grande assembléia realizada na Sociedade Santa Cecília, na presença de centenas de pessoas que enfrentavam o problema, sugeriu que fosse dirigida uma correspondência ao Papa explicando o problema e solicitando a sua intervenção. O pároco de Bom Princípio, Monsenhor José Becker, falou sobre o assunto com o Arcebispo Dom Vicente Scherer e, poucas semanas depois, o problema foi solucionado. O que causou grande alívio para as pessoas que sentiam-se ameaçadas de perder seus bens devido à cobrança judicial e deu grande prestígio ao jovem advogado.

No final dos anos 60 e início dos 70 ele presidiu as duas mais destacadas entidades esportivas e sociais de Bom Princípio: o Grêmio Esportivo União e a Sociedade Santa Cecília (por sete anos). Como presidente do União, Arno teve a ousadia de quebrar um tabu. Devido à fortíssima influência da Igreja, em Bom Princípio não eram realizados bailes nas noites de sábado, pois isto prejudicaria a freqüência às missas realizadas nas manhãs de domingo. Quando preparava a realização de um baile para arrecadar fundos para o clube, Arno conseguiu um bom contrato com a Orquestra Caravelle, a de maior prestígio no estado naquela época. Mas a data disponível era no sábado e ele resolveu fazer o baile nesta data, contrariando a tradição local. Sofreu séria campanha por parte do pároco, que conclamou os fiéis a boicotar o baile. Arno insistiu na promoção e o baile foi realizado com grande sucesso. Ousadia semelhante ele cometeu quando, aproximadamente dez anos depois, comandou a emancipação de Bom Princípio. E, para ter sucesso nesta outra grande empreitada, foi fundamental o prestígio e a liderança que ele conquistou junto à população em empreitadas como esta.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe um comentário
Please enter your name here