Todo dia, fizesse chuva ou sol, Antônio Rühe comparecia pontualmente às 14:30 horas, no escritório da fábrica de conservas de Carlos H. Oderich & Cia, para fazer a leitura do Correio do Povo. Reprodução/Internet

É Max Oderich que nos conta esta história:

“No início deste século, existia um armazém de secos e molhados na rua Marechal Floriano, praticamente esquina com Tiradentes, bem defronte à residência da senhora Alzira Oderich. Seu proprietário era o senhor Antônio Rühe.

Junto à calçada, defronte à casa, havia um lindo cinamomo chapéu de sol e, junto à árvore, um banco de madeira provido de forte encosto. Este era o local preferido de nosso amigo comerciante, para controlar o seu negócio. O banco, o encosto e o tronco da árvore reluziam com uma fina camada de gordura ali deixada pelo uso constante. Seu Antônio era um homem de envergadura muito peculiar: pesava cerca de 120 quilos e tinha apenas 1,50 metro de altura. Quando aparecia um freguês, ele perguntava gentilmente o que lhe faltava, indicava com precisão o local onde se encontrava a mercadoria e mandava deixar o dinheiro sobre o balcão ou, conforme o caso, anotava no caderno. Tudo isto sem necessidade de erguer o seu corpanzil do trono. À tarde, o negócio ficava a cargo dos eficientes 35 quilos de dona Maria, sua esposa, pois o seu Antônio” ia até o escritório da fábrica de conservas Oderich, situado na mesma rua, a duas quadras do seu armazém.

Vizinhos “inimigos”
“Todo dia, fizesse chuva ou sol, Antônio Rühe comparecia pontualmente às 14:30 horas, no escritório da fábrica de conservas de Carlos H. Oderich & Cia, para fazer a leitura do Correio do Povo.

No decorrer da Primeira Guerra Mundial, esta leitura era invariavelmente seguida de uma discussão sobre o desenvolvimento da mesma, com o senhor Adolf e seu filho Carlos Henrique Oderich.

Nesta guerra defrontavam-se, de um lado, os países aliados (França, Inglaterra, Rússia etc) e, de outro, os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria, Hungria e Turquia). O “róseo”, como também era conhecido o Correio devido à cor característica do papel em que era impresso, estava a soldo dos Aliados para publicar apenas notícias favoráveis a eles. O seu Adolfo, como bom alemão que era, foi obrigado a assinar também o jornal Neue Deutsche La Plata Zeitung, de Buenos Aires, que chegava ao Caí com oito dias de atraso.

As discussões entre seu Antônio Rühe e os Oderich tornaram-se acaloradas neste tempo de guerra, porque seu Antônio tinha antepassados franceses. O início das hostilidades fez reviver nele o velho sangue gaulês, transformando-o num fervoroso defensor da causa aliada. Não era de surpreender, portanto, o calor das discussões. Não estavam mais ali, reunidos, não mais vizinhos e amigos, mas os representantes de duas nações em guerra.”

Sem notícias do front
Carlos Henrique Oderich, o fundador da Conservas, trabalhava com seu pai, Adolf, na fábrica que, já naquela época (meados da década de 1910) estava situada no mesmo lugar de hoje, na rua Marechal Floriano. E ali eles recebiam diariamente a visita do comerciante Antônio Rühe, que todas as tardes chegava ao escritório da empresa para ler o Correio do Povo.

Conta Max Oderich: “Um belo dia, meu mano Carlos encontrou nos arquivos um exemplar do Correio da época anterior ao início da guerra. O jornal, bem guardado, tinha ainda a aparência de novo. Como Carlos e seu pai já estavam cansados de enfrentar as discussões com seu Antônio”(simpatizante da causa aliada), “que sempre se munia, como argumento, das notícias do Correio, fornecidas pela agência Havas e Reuter’s, invariavelmente favoráveis aos aliados, eles urdiram um plano: quando o vizinho chegasse, aquela tarde, lhe entregariam aquele exemplar. Dito e feito.

Na hora habitual surgiu o visitante cotidiano. Encontrou o seu jornal no local de costume e leu-o da primeira à última página, enquanto pai e filho esperavam pacientemente pelo início da discussão.

Neste dia, seu Antônio não se interessou, na sua prosa, pelos assuntos internacionais. Os donos da casa tiveram de tomar a iniciativa. O visitante respondeu e argumentou do jeito que pode, mas acabou reconhecendo que os impérios centrais deviam estar levando alguma vantagem, embora circunstancial e passageira, já que a Havas e a Reuter´s não transmitiam notícia alguma oriunda do front.

Só então os Oderich lhe mandaram verificar a data do jornal. Davam eles boas gargalhadas, enquanto seu Antônio verificava que o jornal era de 1912. Dois anos antes, portanto, do início da Primeira Grande Guerra.”

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