A capacidade de liderança e espírito público demonstrado na construção do hospital aumentou o prestígio de Antônio Campani em toda a região Arquivo/FN

Os municípios geralmente aspiram a ter um deputado que os represente na Assembléia Legislativa. Mas, como o número de votos necessário para isto é bastante grande (hoje, algo em torno de 30 mil) torna-se difícil para um município pequeno conseguir eleger um filho da terra para representá-lo. Por isto, no Vale do Caí, apenas Montenegro tem conseguido este benefício. O montenegrino Paulo Azeredo ocupou recentemente uma das cadeiras da assembléia. E, antes dele, outros três políticos deste mesmo município conseguiram eleger-se: Cylon Rosa, Roberto Ataíde Cardona e Hélio Alves de Oliveira.

No ano de 1946, elegeu-se deputado um cidadão residente na então vila e hoje cidade de Pareci Novo chamado Antônio José Campani. Ele, na verdade, era também montenegrino, pois naquela época Pareci Novo ainda não havia se emancipado e era um distrito do município de Montenegro.

Foi, sem dúvida, um feito notável o deste homem que conseguiu vencer uma eleição tão concorrida sendo ele morador de uma vila tão pequena. Por isto vale a pena conhecer melhor a sua história.

Caixeiro-viajante
Antônio Campani nasceu em Porto Alegre no dia 30 de maio de 1892. Ele era filho de um imigrante austríaco chamado Luis Campani, vindo da cidade de Innsbruck, que trabalhava com caixeiro viajante, percorrendo o interior do estado. Sua mãe se chamava Rosina Crusius.

Quando jovem, Antônio José Campani trabalhou como balconista na firma Sperb & Cia, ainda em Porto Alegre. Depois se tornou caixeiro-viajante, como o pai, fazendo vendas para a firma Sperb pelo interior do estado. O caixeiro-viajante (ou musterreiter, em alemão) trabalhava para atacadistas de Porto Alegre visitando os estabelecimentos comerciais do interior (especialmente os antigos armazéns ou vendas) nos quais colhia encomendas de produtos. O musterreiter viajava em lombo de burro ou de mula e os produtos encomendados eram entregues, semanas ou até meses depois, levados em carretas puxadas a boi.

Em 30 de novembro de 1912, Antônio casou-se com Anna Sibylla Junges, que era natural da localidade de Pesqueiro, situada às margens do rio Cai, no interior de Montenegro. O pai de Anna chamava-se Carlos Junges e era dono de um pequeno estaleiro, dedicando-se à fabricação dos barcos que faziam a navegação no rio Caí. Estes barcos, que serviam tanto para o transporte de cargas quanto de passageiros, eram chamados de gasolinas, pelo fato de serem movidos por motores a gasolina. Como Carlos Junges tinha o seu estaleiro na vila de Pareci Novo, Antônio Campani, depois de casado, resolveu ir morar também ali.

Vendendo sementes e ajudando o hospital
Campani continuou trabalhando como musterreiter e, como era dinâmico e trabalhador, progrediu na profissão. Principalmente depois que ele passou a trabalhar com a importação de sementes selecionadas que ele adquiria em grande quantidade, vindas da Alemanha (da cidade de Erfurt), envelopava e distribuía para todo o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Com o tempo ele deixou de lado os burros e mulas, passando a fazer suas viagens de automóvel. Primeiro um Plimouth e depois um Ford ano 40.

A venda de sementes importadas acabou por ser o seu negócio principal. Sua empresa, denominada A S Campani, foi a pioneira no Rio Grande do Sul na comercialização de sementes selecionadas. Ela prosperou chegando a dar trabalho para mais de 50 pessoas, no Pareci Novo, empregadas na tarefa de envelopar as sementes.

Viajantes como Antônio Campani nem sempre encontravam bons hotéis nas cidades por onde andavam. E, por isto, não era raro que eles tivessem de se hospedar em hospitais. E foi assim, quando hospedava-se no Hospital Sagrada Família, que Campani conheceu o doutor Bruno Cassel. Ele viu como o renomado médico caiense enfrentava dificuldades para exercer suas atividades e como eram precárias as condições do hospital da cidade. Isto ocorreu no início da década de 30. Impressionado com o trabalho abnegado que era realizado ali pelo doutor Cassel, Campani resolveu concorrer à presidência da associação que mantinha o hospital, a União Popular. Mobilizou eleitores e venceu a eleição, assumindo o cargo que exerceu por muitos anos, até 1957.

Conseguiu melhorar muito as condições do hospital, a ponto de que já em 1940 ele era considerado um dos melhores do estado. Os prédios foram ampliados com a construção de moderna cozinha, capela, asilo e a instalação de equipamento de raio X.

A eleição para deputado
A capacidade de liderança e espírito público demonstrado na construção do hospital aumentou o prestígio de Antônio Campani em toda a região. Somando-se a isto a sua popularidade, obtida nas muitas andanças como musterreiter e, ainda, às suas intervenções em favor dos colonos alemães que sofreram perseguição política durante a segunda grande guerra (ele contava – para isto – com o apoio do governador Cylon Rosa, que era montenegrino), criaram-se as condições necessárias para que ele fosse indicado como candidato a deputado estadual pelo PSD.

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha tornou-se inimiga do Brasil, os descendentes de alemães que viviam no Brasil foram proibidos de manter contato com a sua pátria de origem e o simples fato de falar alemão podia ser encarado como um ato de traição. O que era um problema sério para muita gente da região colonial que sequer sabia falar o português. Muitos colonos alemães foram presos por causa disto e num caso extremo uma mulher grávida foi morta por agressões sofridas na cadeia, em São Leopoldo. Campani tentou intervir para libertá-la mas, neste caso, o socorro não chegou a tempo.
Na eleição realizada em 10 de janeiro de 1947, Antônio Campani se elegeu como o quinto deputado mais votado do seu partido, um dos mais importantes no estado. Ele foi deputado constituinte, ajudando a criar a nova constituição estadual no período que sucedeu a ditadura de Getúlio Vargas. Valter Jobim era o governador na época, e Eurico Gaspar Dutra presidia o país. Para eleger-se, Campani contou principalmente com os votos de Montenegro, seu município, e do Caí. Os dois únicos municípios do Vale do Caí naquela época. Mas fez votos também em outras regiões do estado, onde tinha amigos devido às suas viagens de vendedor. Fez votos até em Santa Catarina (que não foram válidos, é claro).

Perdas na política e nos negócios
No pleito seguinte, realizado em 1951, Campani trocou de partido, concorrendo pela UDN (influenciado pelo ex-prefeito caiense Luiz Clóvis Kroeff). Enfrentou forte concorrência em Montenegro, onde o ex-prefeito Hélio Alves de Oliveira elegeu-se deputado pelo PL. Não conseguiu eleger-se, ficando apenas como suplente de deputado.

Esta campanha para deputado foi muito acirrada. Carlos Campani, filho mais novo do deputado, conta alguns episódios que presenciou. Em certa ocasião seu pai promovia uma reunião de campanha na Sociedade de Pareci Velho fazendo a projeção de um filme para os eleitores do lugar. Enquanto isto, adversários cortaram os aros da roda do seu carro estacionado próximo à sociedade. Os aros eram de madeira. Noutra ocasião, opositores colocaram sal dentro do radiador, o que teria causado irremediável dano ao motor, caso este fosse ligado. Mas o golpe foi descoberto antes que isto acontecesse, pois os desafetos deixaram cair sal nas imediações do carro e o radiador pode ser esvaziado e limpo antes do motor ser acionado. E aconteceu ainda que, em Montenegro, foram colocados falsos panfletos de propaganda escritos em alemão – o que era proibido – dentro do carro do candidato. Horas depois a polícia foi fazer uma inspeção no carro, atendendo a uma denúncia, e nada encontrou. Um filho do deputado, Carlos, havia encontrado os panfletos e eles foram retirados do carro antes que a polícia fizesse a sua inspeção.

Continuou com as suas atividades de empresário, no comércio de sementes. Em 1964, já com 72 anos, mas ainda bastante dinâmico, ele sofreu um grande prejuízo. Perdeu grande parte das suas economias devido à inflação galopante que ocorreu neste ano. Desgosto que talvez contribuiu para a sua morte, ocorrida em 8 de agosto daquele mesmo ano, vitimado por um infarto.

Deixou os filhos Luis Germano, Gertrudes Rosina, Ilse Brunilde, Paulo (que morreu ainda bebê) e Carlos Antônio, que seguiu a sua profissão de caixeiro-viajante.

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