Esta é a única foto do casamento é a única que os pesquisadores apontam como autêntica de João Jorge Maurer e Jacobina Mentz Reprodução/Internet

O episódio dos Mucker foi um dos mais marcantes acontecimentos da fase inicial de colonização alemã no Rio Grande do Sul. Este trágico acontecimento deixou profundas feridas na comunidade germânica que havia sido formada na região dos vales do Sinos e Caí apenas 50 anos antes. É a história do surgimento de uma seita e dos conflitos que os seus seguidores tiveram com os adeptos de outras crenças religiosas. O conflito chegou a um ponto tal que as autoridades tiveram de intervir para tentar manter a ordem. E, quando o fizeram, os políticos, funcionários públicos e militares agiram – talvez – de forma inábil e preconceituosa, resultando daí um agravamento do conflito. No final, muitas mortes desnecessárias ocorreram por conta da falta de compreensão e entendimento.

Um dos personagens centrais desta história foi o carpinteiro e agricultor João Jorge Maurer. Nascido na Picada de São José do Hortêncio em 28 de fevereiro de 1841, ele casou 25 anos depois com a jovem Jacobina Mentz, filha de uma bem conceituada família de agricultores residente em Hamburgo Velho. Jacobina era uma jovem com problemas psicológicos. A ponto dela ser levada ao Doutor Hillebrand e este haver recomendado aos pais que procurassem um casamento para ela o quanto antes. Conforme a descreveu o seu cunhado João Jorge Klein, homem culto, “Jacobina, em sua meninice, era uma criança doentia, muito disposta a chorar, aprendia pouco e com dificuldade e sofria de insônia. Agitada durante a noite com sonhos, sofria de convulsões”. Com o passar dos anos os problemas se agravaram e “Jacobina jazia muitas vezes sem sentidos, abaixo de convulsões, pronunciando palavras sem nexo.”

Curandeirismo

Depois de morar algum tempo na casa da família de Jacobina, o casal foi residir na Picada do Ferrabraz, assim denominada em virtude da proximidade com o Morro do Ferrabraz. O local é próximo a Novo Hamburgo, localizado no atual município de Sapiranga.

Há informações de que João Jorge Maurer morou algum tempo em Porto Alegre e lá chegou a anunciar num jornal os talentos de adivinha de sua mulher. Ele era um homem dotado de certo refinamento, cuidadoso com a aparência e bem falante. Tinha, talvez, uma certa malandragem, procurando meios de ganhar dinheiro com menos esforço do que o necessário nos trabalhos da agricultura ou da carpintaria. Quando foi residir na Picada Ferrabraz, passou a ganhar dinheiro atuando como curandeiro, receitando ervas. Ele teria aprendido alguma coisa sobre o poder de cura das ervas com um curandeiro que passou pela colônia e se chamava Buchern.

Com sua boa conversa, Maurer conseguiu se firmar no meio colonial como um médico milagroso. Vinha gente de longe até a sua casa para fazer consultas com ele. Jacobina, por sua vez, era muito interessada por religião. Lia a Bíblia e costumava fazer pregações para os doentes que, de toda parte, vinham até sua casa em busca da cura para suas doenças prometidas por seu marido. Quando Jacobina tinha seus desmaios, pronunciava frases incompreensíveis que, por isto mesmo, os crédulos visitantes da casa imaginavam ser mensagens vindas do além.

Da ignorância, nasce o ódio

Estudiosos afirmam que os distúrbios psicológicos de Jacobina passaram a ser utilizados por João Jorge Maurer como meio de iludir as pessoas que foram levadas a vê-la como uma adivinha, profetisa ou intérprete das mensagens divinas. As crises epilépticas da esposa (ou seriam apenas encenações?) serviam como um atrativo a mais para atrair clientes à casa do “doutor”.

No Brasil do século passado, ainda mais quando se trata do meio interiorano, a instrução do povo era bastante baixa. Pode se considerar até que na colônia alemã havia uma preocupação com a educação bem superior à média mas, mesmo assim, a instrução dos colonos naquela época era bastante deficiente. Por isto, não faltaram pessoas dispostas a acreditar que Jacobina fosse uma espécie de mensageira da palavra de Deus. O sucesso do casal Maurer foi tanto que o movimento das visitas à sua casa tornou-se intenso.

Começou a surgir, assim, uma seita religiosa. Entre os moradores das colônias próximas ao Ferrabraz, alguns tornaram-se adeptos das pregações de Jacobina, enquanto outros não se interessaram por elas. E houve, também, os que tratavam com desdém o casal Maurer e seus adeptos. Chamavam-nos de mucker, o que quer dizer santarrões. Estes detratores acusaram Jacobina e seus adeptos de praticarem atos imorais e subversivos.

No início de 1873, moradores da vizinhança dirigiram uma correspondência ao delegado de São Leopoldo, Lúcio Schreiner, fazendo sérias acusações contra Maurer, Jacobina e seus adeptos. O delegado transmitiu a denúncia ao Chefe da Polícia da Província, em Porto Alegre. Este, preocupado com as denúncias, dirigiu-se até São Leopoldo e determinou que uma força policial fosse até o Ferrabraz e de lá trouxesse, presos, Maurer e a esposa. Mandou, também, que fosse apreendidas todas as armas e munições que fosse encontrada em poder dos denunciados.

João Jorge Maurer e seis dos seus seguidores foram imediatamente conduzidos até São Leopoldo, enquanto que Jacobina teve de ser levada apenas no dia seguinte, de carruagem, porque encontrava-se num dos seus estados de desfalecimento. Expostos à curiosidade pública, os mucker sofreram graves humilhações. As alegadas armas que constavam da denúncia não foram encontradas entre os adeptos de Jacobina e as autoridades acabaram por libertar os acusados por considerar que as denúncias eram improcedentes. Depois de quase um mês presos, Maurer e Jacobina voltaram para sua casa e continuaram com suas atividades.

Deixe seu comentário