Adelar Veit era vereador e defendeu a emancipação na Câmara Arquivo/FN

No início da década de 1980 foi aberta pela Assembléia Legislativa, a possibilidade de serem criados novos municípios no estado. As exigências previstas na lei, no entanto, eram muito elevadas, de modo que dificilmente algum novo município poderia ser criado dentro daquelas normas. Mas, como os deputados estaduais se mostravam muito favoráveis à criação de novos municípios, foi percebida a possibilidade da Assembléia ser tolerante no exame quanto ao cumprimento de tais exigências. Com isto muitas propostas de emancipação foram surgindo, chegando a quase uma centena em todo o Rio Grande do Sul.

Por esta época o asfaltamento da rodovia RS-122, ocorrido há mais de dez anos, já havia dado um novo impulso ao desenvolvimento de Bom Princípio. Surgiram novas indústrias, como a fábrica de bicicletas Odomo e empresas tradicionais, como a Cerâmica Vogel e a Backes ganharam novo impulso. Com isto a ideia de emancipação, que pareceu impensável quando da desanexação de Montenegro em 1953, em 1981 foi encarada como uma possibilidade real.

Entre os projetos de emancipação surgidos na época, dois eram localizados no Vale do Caí. O de Barão e o de Bom Princípio. Barão pretendia se emancipar de Salvador do Sul e o principal líder do movimento era o ex-prefeito deste município, Valério Caliari. Na tentativa de chegar o mais próximo possível das exigências previstas na lei de emancipações (população de 10 mil habitantes e arrecadação mínima de 5 milésimos do total arrecadado no estado, entre outras), Caliari incluiu o distrito caiense de São Vendelino na área do projetado município de Barão. O que veio a causar uma séria dificuldade para a emancipação de Bom Princípio. São Vendelino deveria ser incluído no projeto de Bom Princípio, mas Caliari se antecipou e, quando o projeto de Bom Princípio foi elaborado, já não foi mais possível incluir São Vendelino.

A solução foi, então, aumentar as dimensões de Bom Princípio com a inclusão de Tupandi e avançar as divisas do projetado município até bem perto da sede municipal de São Sebastião do Caí. A população de Bom Princípio e a de Tupandi eram bem conhecidas, pois foram levantadas no recenseamento de 1980. E elas, somadas, ficavam muito abaixo dos 10 mil habitantes exigidos pela lei. Para superar este problema, o projeto emancipacionista de Bom Princípio incluiu localidades que faziam parte então do Primeiro Distrito (a Sede) de São Sebastião do Caí: Bela Vista, Paraíso e Vigia, chegando a atingir até uma parte do bairro caiense do Rio Branco.

No dia 9 de maio de 1981 foi feita uma reunião no porão da Sociedade Santa Cecília que reuniu as principais lideranças do município, unindo líderes dos diferentes partidos que esqueceram suas diferenças em favor do objetivo maior.

Ideia lançada, surgem contestações

Foi eleita, na ocasião, a Comissão de Emancipação de Bom Princípio, que teve Arno Eugênio Carrard como presidente; Orlando Willibaldo Henz como vice; José Celestino Volkweis e Alcido Afonso Poersch como tesoureiros; Alberto Willibaldo Bartzen e José Plínio Gattermann como secretários e mais Ivo Winter, José Francisco Juchem, José Egídio Schneider, Adalíbio Seidel, Remo Felipe Lauermann e Otto Floribaldo Stoffel como auxiliares. Arno Eugênio Carrard era, no entanto, o grande propulsor de todo o movimento e sobre ele recaiu a maior parte do trabalho e da responsabilidade.

Em dezembro de 1981 reportagem do jornal caiense Fato Novo apresentou a emancipação com boas perspectivas de efetivar-se. Reproduziu declaração do vereador Adelar Veit, de Bom Princípio, dizendo que em Bom Princípio não havia ninguém que fosse desfavorável à emancipação. Mas esclarecia que o desejo de emancipação não resultava de um sentimento hostil de independência. Era uma decorrência natural do progresso extraordinário por que passava aquela região.

Os emancipacionistas vislumbravam boas coisas que viriam com a emancipação. Estaria acertada a instalação de uma agência bancária logo após o plebiscito, segundo entendimentos já mantidos com Cláudio Chassot, filho de Bom Princípio, que era um dos principais diretores do Banco Sulbrasileiro. Na mesma reportagem Arno Carrard dizia que o projeto de emancipação havia sido aprovado unanimemente na Assembléia Legislativa, sendo apontado inclusive como um dos que melhor foi elaborado entre todos já apresentados até então. A sanção do governador do estado José Augusto Amaral de Souza também foi obtida imediatamente e a data para a realização do plebiscito (28 de março) já havia sido fixada pelo Tribunal Regional Eleitoral.

No final de janeiro de 1982, no entanto, o vice-prefeito de Montenegro, Edgar Roberto Fink, tendo assumido a prefeitura em substituição ao prefeito Jacó Zimmer, anunciou que impetraria mandado de segurança contra a emancipação de Bom Princípio a pedido de moradores de Tupandi. Em resposta a este pronunciamento, o vice-presidente da Comissão Emancipadora, Orlando Henz, declarou que a população de Tupandi é amplamente favorável à adesão deste distrito montenegrino ao projeto emancipacionista, pois a sede municipal, com isto, ficaria muito mais próxima. Henz apresentou como prova disto a adesão das principais lideranças locais, como Guido Kerscher, Pedro Schaedler e os vereadores Hilário Junges e Almiro Mombach.

Grandes dificuldades

O prefeito caiense, na época, era Heitor Pedro Selbach, que era natural de Bom Princípio continuava residindo no distrito (em Santa Terezinha). E isto o deixou numa situação muito delicada. No Caí havia o reconhecimento de que o povo de Bom Princípio tinha o direito de buscar o seu progresso através da emancipação, assim como já havia acontecido com outros distritos caienses (Nova Petrópolis, Feliz e Portão, para citar os casos mais recentes). Mas não era aceito o fato da divisa do pretendido município de modo tal que tomaria do Caí até mesmo uma parte da zona urbana da sua sede municipal. Muitos caienses pensavam que a divisa entre o Caí e Bom Princípio deveria ser determinada pelo rio Caí. E os próprios moradores da Vigia e de Bela Vista, ao menos num primeiro momento, não desejavam integrar o novo município. Viam o Caí como uma cidade já estruturada e, portanto, apta a atender melhor às suas necessidades, enquanto Bom Princípio era apenas uma vila, com muitas carências de estrutura.

Como prefeito caiense, Heitor Selbach chegou a tentar impedir a emancipação de Bom Princípio, sua terra natal
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Diante desta situação, mesmo constrangido, o prefeito Heitor Selbach acabou ingressando com um mandado de segurança que tinha por objetivo impedir a emancipação. Alegava para isto o fato, aliás incontestável, de que o pretendido município de Bom Princípio não atendia às exigências da lei. De fato, além da sua população ser menor do que 10 mil habitantes, a arrecadação não chegava nem perto dos 5 milésimos da arrecadação estadual. Este limite era tão elevado que nem mesmo o município de São Sebastião do Caí (que na época ainda incluía Bom Princípio, São José do Hortêncio e Capela de Santana) atingia tal nível de arrecadação.

O mandado de segurança representava um perigo real para a emancipação. Se o caso fosse levado à justiça seria impossível negar o fato evidente de que Bom Princípio não atendia às exigências da lei. Arno Carrard chegou a ir até a residência de Valério Caliari, em Barão, para tentar convencê-lo a excluir São Vendelino do projeto de emancipação de Barão. Caso conseguisse incluir São Vendelino no projeto de Bom Princípio, seria possível abrir mão das áreas que os caienses não estavam dispostos a ceder. Caliari, no entanto, não atendeu aos apelos e ponderações de Carrard.

São Vendelino reage

Mas a população de São Vendelino mobilizou-se contra a sua inclusão no projeto de Barão, pois seria muito inconveniente passar a pertencer àquele município, já que a futura sede ficaria distante e ligada por estrada ruim. Seria mais conveniente para os vendelinenses ter sua sede municipal no Caí ou em Bom Princípio, pela facilidade de ligação por estrada asfaltada. O plebiscito para a emancipação de Barão ocorreu no dia 7 de março de 1982 e apenas 156 eleitores de São Vendelino votaram pelo sim, contra 654 que votaram pelo não. Com isto, o plebiscito de Barão acabou com vitória do não e o projeto emancipacionista fracassou.

Este fato acabou representando um obstáculo para a emancipação de Bom Princípio, pois se o município de Bom Princípio fosse criado, São Vendelino (que continuaria pertencendo ao Caí ) ficaria isolado da sua sede municipal. Em virtude disto, foi suspenso o plebiscito para a emancipação de Bom Princípio, que estava marcado para o dia 28 de março. Teve de ser feita, às pressas, uma reformulação do projeto emancipacionista, com a inclusão de São Vendelino.

No dia 30 de março a Comissão de Justiça da Assembléia Legislativa já aprovava o novo projeto. No dia seguinte ele era aprovado pelo plenário da Assembléia e, no dia 1º de abril, recebia a sanção do governador Amaral de Souza. No mesmo dia o Tribunal Regional Eleitoral marcou a nova data para a realização do plebiscito: 25 de abril de 1982. Tudo precisava ser resolvido muito rapidamente, porque a lei estabelecia um prazo limite para a realização do plebiscito, que não poderia ser muito próximo da data das próximas eleições municipais, marcadas para novembro do mesmo ano.

Ao mesmo tempo que conseguia agilizar o trâmite do processo emancipatório em Porto Alegre, Arno Carrard tinha de administrar a pendenga quanto à divisa com São Sebastião do Caí.

No dia 8 de abril ele declarou ao jornal Fato Novo:
“Criado este novo quadro, em função da inclusão de São Vendelino no nosso projeto emancipacionista, temos como repensar a respeito das questões de limites defendidas com veemência pelas forças vivas de São Sebastião do Caí, especialmente o seu prefeito, vice-prefeito e Câmara de Vereadores. São justas as ponderações destes líderes caienses, pois as divisas por nós propostas inicialmente, de fato, invadiam a área urbana da sede, ao alcançarem o bairro Rio Branco.

Se estes limites podiam ser entendidos como uma agressão ao espaço físico caiense, de outro lado representavam uma necessidade para que Bom Princípio alcançasse o mínimo de população exigido por lei, para a sua emancipação.

Agora, com a inclusão de São Vendelino, este problema está superado e, por isto, nos dispomos a alterar as divisas, ao menos até o Arroio Três Mares. A própria Comissão de Emancipação, que sempre reconheceu a justiça das reclamações formuladas pelos líderes caienses, está agora empenhada no sentido de afastar a divisa da área urbana de São Sebastião do Caí, mediante aperfeiçoamento do seu mapa. Busca, com isto, uma solução harmoniosa, capaz de atender aos interesses de ambos os lados.

Estas providências serão tomadas tão logo seja realizado o plebiscito e só não foram ainda levadas a efeito porque poderiam criar novos embaraços ao encaminhamento do processo, o que seria muito inconveniente devido à exiguidade do tempo que nos resta para promover a emancipação. Nós asseguramos que o Caí terá a sua área urbana resguardada, o que representa uma conquista sua, assim como a de ver suas lideranças unidas em torno da defesa dos interesses maiores da coletividade.”

Vitória

Arno Carrard sentiu o peso de tantas dificuldades na luta pela emancipação. E, para aumentar ainda mais a sua tensão, ele estava envolvido em um grande movimento político que ocorria a nível nacional e estadual. Numa convenção realizada em Porto Alegre no dia 18 de abril, uma semana antes da realização do plebiscito, o PP (partido ao qual Arno Carrard estava vinculado) uniu-se ao PMDB (sendo absorvido por este) com o objetivo de reforçar a candidatura de Tancredo Neves à presidência da República. Arno, com isto, tornou-se secretário estadual do PMDB e um dos principais dirigentes estaduais do partido. Uma posição que lhe causaria dificuldades pois ele, assim como seu pai, sempre haviam militado politicamente na corrente política oposta às que dominavam no PMDB gaúcho. O prefeito caiense Heitor Selbach, indignado com o ocorrido, pediu o seu desligamento do PMDB.

Chegou o dia 25 de abril e o pleito foi realizado. A votação foi encerrada às cinco horas da tarde e a expectativa popular era enorme. A apuração dos votos começou às oito horas da manhã do dia seguinte, nas dependências do CTG Lauro Rodrigues, em São Sebastião do Caí. A primeira urna apurada apresentava uma massacrante vitória do não. Era a urna da localidade de Roncador, pertencente ao município de Feliz, que somou 162 votos para o não e 13 para o sim. Os emancipacionistas podiam prever que perderiam nesta localidade, mas a diferença avassaladora causou um certo temor entre o grande número de emancipacionistas que estavam presentes, acompanhando a apuração. Veio depois o resultado da segunda urna apurada, a da localidade de Vigia, com novo resultado negativo: 123 votos pelo não e 54 pelo sim, o que aumentou o nervosismo. Terminou aí, porém a tensão dos emancipacionistas, pois todas as urnas restantes apresentaram significativas vitórias do sim. No resultado total do pleito, 80,8 % dos votos válidos foram pelo sim.

Abílio Luft, principiense que era vereador caiense, apoiou a emancipação
Arquivo/FN

Em Bom Princípio, o percentual de votos favoráveis foi de 96,2 %; em Santa Terezinha, de 92,6 %; em Piedade, chegou a 86,3 %; em São Vendelino a 71,0 %. Em Tupandi o percentual foi de 71,6 % e mesmo na Bela Vista, onde até poucos dias a perspectiva era de vitória do não, houve uma virada nos últimos dias e acabou ocorrendo vitória do sim com 72,1 % dos votos. A Rádio América, de Montenegro transmitiu a apuração e, por volta das onze horas da manhã, o locutor Angenor Diniz declarou Bom Princípio como sendo o mais novo município do estado. O povo de Bom Princípio saiu às ruas e foi se aglomerando na frente da Sociedade Santa Cecília. Líderes emancipacionistas que estavam no Caí acompanhando a apuração tomaram os seus carros dirigindo-se a Bom Princípio em caravana. Chegaram à vila businando e soltando foguetes. Enquanto isto Arno Carrard se dirigiu à prefeitura do Caí para expressar o agradecimento do povo de Bom Princípio e São Vendelino pela forma como a prefeitura caiense sempre tratou os dois distritos. O prefeito Heitor Selbach não estava na prefeitura pois participava de um congresso de prefeitos gaúchos e Carrard foi recebido pelos secretários municipais Roque Schmitz e Astor Dries e pelo presidente da Câmara de vereadores Abílio Luft. Carrard disse a eles que São Sebastião do Caí estava de parabéns pois liberava mais uma vez um distrito seu em condições de tornar-se uma rica e próspera comunidade independente.

Uma explosão de alegria

A caravana que chegou a Bom Princípio às onze horas da manhã partiu em seguida, engrossada por mais uma centena de carros, rumo a Santa Terezinha e São Vendelino, percorrendo as ruas destas localidades e sendo saudada pela população. À tarde, nova caravana se dirigiu a Tupandi, visitando a localidade de Morro da Manteiga, onde a vitória do sim foi por 125 votos contra apenas três. Animada pela banda Tupã Som, liderada pelo vereador Almiro Mombach, a população fez um carnaval na Sociedade São Luiz de Tupandi. Quando a caravana retornou a Bom Princípio encontrou uma grande concentração popular em frente à Sociedade Santa Cecília. As empresas locais haviam liberado seus funcionários, fazendo um feriado voluntário.

Chamado ao microfone por Normélio Müller, que animava a festa, Arno Carrard usou o microfone para fazer apenas um discurso muito rápido. Perguntou ao povo se houve arrependimento pelo esforço dispendido na luta pela emancipação. Ao que o público respondeu com um entusiástico não. Carrard declarou então que estava oficialmente criado o município de Bom Princípio.

O povo ali reunido aclamou o nome do líder maior da sua emancipação. Mas quem conhecia bem Arno Carrard e sabia dos seus pendores para a oratória, não deixou de estranhar a sua fala tão breve.

Ocorre que ele estava esgotado. Tomava 23 remédios diferentes, sentia frio e usava casaco mesmo em dias de intenso calor. Mas, mesmo doente, participou do esforço final da campanha pela emancipação, promovendo concentrações e discursos em favor do sim.

Algumas semanas antes, perguntado sobre os seus sentimentos a respeito do trabalho que vinha desenvolvendo, disse que fazia isto “pelo afeto que dedicava ao povo de Bom Princípio e, particularmente, à memória daqueles que por aqui passaram nos deixando saudades, especialmente meu pai.”

 

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