O senhor Diefenthaeler, personagem dessa história, era sogro de outra grande personalidade caiense: o empresário Helmuth Blauth (foto) Arquivo/FN

Max Oderich, já idoso, escreveu para o Fato Novo a seguinte narrativa:

No início do século XX, havia um forte negociante de secos e molhados estabelecido na velha estrada do Arroio Bonito, bem próximo da Vila Rica: o Senhor Diefenthaeler. Ele era sogro do Helmuth Blauth, tinha por hobby a criação de cavalos de corrida e, no fundo de sua vasta propriedade, possuía uma bela cancha reta para o treinamento dos seus pingos.

Um belo dia, por volta do ano de 1920, ele se encontrou com o farmacêutico Maméde Borges, que foi o primeiro caiense a adquirir um automóvel. Um veículo barulhento, que tinha empestado e poluído o ar puro da vila. Isso quando o motor funcionava. O que não acontecia sempre.

Os dois cavalheiros começaram a trocar ideias sobre as vantagens e desvantagens desse novo invento.

Aos poucos, os ânimos foram se aquecendo e a discussão tornou-se mais acalorada. A ponto de surgir o desafio para uma corrida: automóvel versus aranha (charrete).

Apostaram um conto de réis, o que era muito dinheiro.

O ponto de partida foi a esquina das ruas hoje denominadas Oderich e Egydio Michaelsen, defronte ao, então, armazém do seu Both. Combinaram, também, que a chegada seria na barca do Arroio Cadeia. O percurso passava pela bela casa de negócios do Fleck, residências dos senhores Burzlaf e Braun, a velha estrada do cemitério, a moradia do Augustin e pela granja da fábrica de conservas de Carlos Henrique Oderich.

Atado o páreo, fixado o dia e a hora da corrida, cada contendor foi tratar dos respectivos preparativos.

No dia e hora aprazados, lá estava o senhor Diefenthaeler, com a sua bela aranha. Eixos bem encebados e um parelheiro (cavalo de corrida), ainda mais belo, atrelado a ela. Ao lado, postou-se o nosso amigo Maméde, com seu carro faiscando de afiado. Pneus novinhos em folha.

Tudo pronto, foi dada a partida sob imensa expectativa da enorme massa de curiosos, sendo elevado o número de apostas da torcida.

De início, tudo parecia favorecer o veículo motorizado. Bastava apertar mais fundo o pedal para que aumentasse não somente o barulho, a fumaceira, a poeira e o mau cheiro, mas também a velocidade. Isto, no entanto, não perturbou em nada o sistema nervoso do condutor da aranha, que sabia muito bem quando e onde deveria apelar para as energias do seu corcel.

Com boa dianteira, o automóvel alcançou o areial localizado entre as residências do senhor Burzlaf e Braun, ao pé da rampa dos Augustin.

Mas, ali nas areias fofas e profundas, os papéis se inverteram.

Enquanto as finas rodas da aranha cortavam a pista, sem maiores dificuldades, o nosso automóvel começou a patinar, afundar e – finalmente – ficou preso até o eixo na massa fofa da pista. Assim, foi ali mesmo que decidiu-se a corrida. O nosso amigo Diefenthaeler já estava bem descansado, dando água ao seu parelheiro no Arroio Cadeia, quando finalmente chegou o automóvel, que tinha no volante o nosso ilustre e tão bem quisto “pharmaceutico” e, porque não dizer, médico (quando havia absoluta falta de outro).

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