Adolph Oderich foi caixeiro viajante e as histórias vividas por ele na década de 1880, foram transmitidas para seu filho Max que as deixou escritas Imagem meramente ilustrativa/Internet

Adolph Oderich tinha 22 anos quando chegou ao Brasil, em 1879. Veio para trabalhar numa empresa de Porto Alegre, como caixeiro viajante. Andando a cavalo, ele percorria distâncias enormes, visitando armazéns e lojas para os quais vendia mercadorias diversas. Ele contava histórias desta época, que seu filho Max escreveu e, assim, chegaram até nós. Transcrevemos aqui algumas delas.

“Certo negociante possuía enorme “burra”, hoje denominado cofre-forte, no próprio salão de atendimento aos fregueses. Meu pai estranhou e indagou se não seria, talvez, mais prudente deixar essa burra em lugar mais discreto. Ao que o negociante retrucou: Senhor Adolph, vamos fazer de conta que o senhor é um assaltante. Puxa do trabuco ou faca obrigando-me a abrir o cofre. E, com isso, abriu a burra e já estava com duas garruchas ENGATILHADAS, uma em cada mão. O senhor não teria tempo nem mesmo de piscar um olho. Venho praticando isso todos os dia, antes de me recolher. Apelar para a polícia? Nem mesmo era conhecida naquelas bandas.

Falha de comunicação
História contada por Adolph Oderich ao seu filho Max, a respeito da época em que percorria o interior do estado, a cavalo, trabalhando como vendedor. Esta ocorreu no tempo em que ele era jovem, chegado há pouco da Alemanha, na década de 1880.

“Naquele tempo, escrever uma carta era trabalho estafante. Uma vez escrita, tinha que ser postada ou entregue a viajante responsável, que a fizesse chegar ao destino com segurança. Acabava de chegar, por carreta de boi, um carregamento de café, pólvora, arame farpado, tecidos. Tudo minuciosamente conferido pelo negociante e de acordo com a fatura. Mas faltava um item: duas caixas contendo pregos. O negociante sentou-se, imediatamente, atrás do balcão. Serviu-se de papel, tinteiro, e pos-se a elaborar uma carta à firma vendedora comunicando o ocorrido e pedindo providências. Mal terminara a fabricação desta carta, chegou outra carreta que descarregou as duas caixas faltantes. O negociante pegou novamente a caneta e acrescentou o seguinte: N.B. acabo de receber as duas caixas de prego. Fatura em ordem. Em seguida entregou a carta ao meu pai, com o pedido de encaminhá-la ao destinatário.”

Barriga assada
Histórias que Adolfo Oderich contava ao seu filho Max, e que este deixou escritas para o nosso conhecimento. Elas falam da época em que Adolfo foi caixeiro viajante, na década de 1880. Para quem não sabe, caixeiro viajante era o nome dado aos profissionais que, hoje, são chamados de representantes comerciais. Vendedores que fazem a intermediação comercial entre as fábricas e os lojistas.

“Ser caixeiro viajante representava verdadeiro suplício, pois além de vendedor, o viajante, simultaneamente, também era cobrador. A falta de agências bancárias era absoluta. Nem mesmo sabia-se o que isto significava. Tempo em que o vil milréis valia mais que a libra esterlina. Lapso de tempo muito curto, mas suficientemente longo para deixar todo viajante comercial com a pele da barriga em carne viva. A razão? Simples. Os negociantes pagavam suas faturas com libras esterlinas: moedas de OURO. E, como reza o Pai Nosso, não nos deixai cair em tentação, os peões dos viajantes eram muito honestos. Mas o seguro morreu de velho, e assim mesmo morreu. A prudência mandava usar a guaiaca (melhor seria dizer as guaiacas) debaixo da camisa. Assim fazia o Senhor Adolfo, meu pai. Com o calor reinante, poeira, suor, eterno jingar da montaria nas infindáveis léguas que separam essas paragens ainda hoje consideradas longínquas da capital do Estado, não havia pele humana que aguentasse o tranco. Sabemos que alegria em casa de pobre dura pouco. E assim os nossos viajantes deram graças ao bom Deus quando o mil réis voltou ao valor normal.”

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